SSE #102: Doenças provocadas pelo calor
Autores: Michael N. SawkaSamuel N. CheuvronRobert Carter
PONTOS PRINCIPAIS
- A intensidade das doenças provocadas pelo calor varia de leves (exantema cutâneo, síncope, cãibras) à graves (exaustão, lesões, choque térmico ou insolação).
- Apesar de qualquer pessoa poder apresentar essas doenças provocadas pelo calor, há um aumento do risco associado à uma série de fatores ambientais, características pessoais, condições de saúde e medicamentos.
- O risco de graves doenças provocadas pelo calor podem ser dramaticamente diminuídas por meio de várias medidas para combatê-las, como a aclimatação ao calor, controle da exposição ao estresse térmico e manutenção da hidratação.
- Atletas, técnicos, equipe técnica e equipe médica devem estar atentos para os sinais e sintomas de doenças provocadas pelo calor. Se houver sinais de advertência e se o organismo for resfriado rapidamente, é possível evitar graves doenças provocadas pelo calor.
- Se houver suspeita de um choque térmico, o corpo deve ser imediatamente resfriado, seja pela imersão em água fria ou envolvendo o corpo com água fria ou gelada.
INTRODUÇÃO
O choque térmico (ou insolação) afeta a vida de indivíduos aparentemente saudáveis de maneira trágica, como atletas (Bergeron et al., 2005), militares (Carter et al., 2005) e trabalhadores industriais. De 1995 a 2001, 21 jovens jogadores de futebol americano morreram de insolação nos Estados Unidos (Bergeron et al., 2005) e essas mortes trágicas continuam a acontecer. Fatalidades em esportes organizados, que são amplamente divulgadas na imprensa, continuam a aumentar a conscientização do choque térmico entre atletas de todos as categorias (Bailes et al., 2002; Casa et al., 2005; Roberts, 2004). Além disso, apesar da incidência do número total de hospitalizações causadas por essas enfermidades ter diminuído nos últimos anos na população militar dos EUA, a taxa de incidência de hospitalizações causadas pela insolação aumentou cinco vezes (Carter et al., 2005).
O choque térmico é uma causa persistente de morbidade e mortalidade em populações de idosos e indivíduos mais propensos por diferentes motivos. Em média, aproximadamente 250 a 400 pessoas morrem anualmente por causa da insolação nos Estados Unidos, mais que 1700 pessoas morreram durante a onda de calor no verão de 1980 e 700 mortes pela mesma causa foram documentadas em Chicago em 1995 (CDC - Centers for Disease Control and Prevention, 2003). Um relatório recente indica que de 1979 a 2002, 4780 mortes foram atribuídas à exposição ao calor extremo (CDC - Centers for Disease Control and Prevention, 2005).
O choque térmico é certamente um grave problema de saúde pública. É mais provável que ocorra durante a exposição aos ambientes quentes e/ou úmidos, mas isso também pode acontecer em regiões temperadas, acometendo principalmente aqueles que praticam atividade física intensa e prolongada. Populações de atletas e militares realizam atividade física extenuante de rotina (produzindo altos níveis de calor metabólico) por tempo prolongado em clima quente e são, portanto, inerentemente suscetíveis a esse problema (Epstein et al., 1999).
Este artigo tem como objetivo definir as doenças provocadas pelo calor, descrever o desenvolvimento e fisiopatologia dessas doenças, e delinear a base científica para seu controle e tratamento.
REVISÃO DA LITERATURA
Definição das Doenças Provocadas pelo Calor
Doenças leves. As doenças mais leves provocadas pelo calor incluem cãibras e síncopes. As cãibras provocadas pelo calor são marcadas por intensos espasmos musculares, tipicamente nas pernas, braços e abdome. As cãibras provocadas pelo calor são conseqüência da redução de líquidos e sódio e é mais comum entre indivíduos que não estão completamente aclimatados para realizar um programa de atividade muscular intensa sob calor.
A síncope (desmaio) caracteriza-se pela vertigem (tontura) e fraqueza durante ou após permanecer em pé por tempo prolongado ou após levantar-se depois de permanecer deitado ou sentado em ambiente quente. A síncope é resultado do acúmulo de sangue na circulação venosa da pele e dos músculos da perna, sendo mais freqüente em indivíduos desidratados, que não se exercitam e que não estão aclimatados (Seto et al., 2005).
Doenças graves provocadas pelo calor. Essas incluem a exaustão, lesões e o choque térmico(insolação). Há muita sobreposição das características de diagnóstico dessas condições e sugeriu-se que elas variam de acordo com uma escala contínua de gravidade (Bouchama & Knochel, 2002).
Exaustão pelo calor é uma condição moderada/grave que se caracteriza pela incapacidade de manter o débito cardíaco e a presença de temperatura corporal moderada (>38.5°C) a alta (>40°C). O quadro também costuma incluir pele quente e desidratação.
Lesão provocada pelo calor é uma condição que pode ser moderada a grave, caracterizada pela lesão a um órgão (ex., fígado, rins, intestinos, músculos) e normalmente, mas nem sempre, com alta temperatura corporal ? >40°C.
O choque térmico é um quadro grave caracterizado pela disfunção do sistema nervoso central (ex. confusão, desorientação, comprometimento do julgamento) e costuma ser acompanhada por um aumento da temperatura central acima de 40,5°C. É importante enfatizar que pacientes com temperatura central acima de >40°C não necessariamente apresentam a lesão ou golpe pelo calor; deve-se considerar o quadro clínico como um todo, incluindo o quadro mental e resultados laboratoriais. Algumas vezes, indivíduos que sofreram o choque térmico apresentam comprometimentos profundos na função cerebral, marcados pelas alterações cognitivas que podem ser percebidas precocemente. Além disso, pode haver complicações causadas por lesões hepáticas, rabdomiólise (quebra do tecido muscular), presença de coágulos amplamente distribuídos (coagulação intravascular disseminada), desequilíbrios hidro-eletrolíticos e insuficiência renal.
O choque térmico costuma ser categorizado como “clássico” ou “de esforço”, sendo que o primeiro é particularmente observado em idosos ou em outros grupos populacionais comprometidos ou enfermos, e o segundo em indivíduos aparentemente saudáveis e em boa forma física. Alguns trabalhos experimentais apontam evidências de que para uma determinada exposição ao calor, a mortalidade e a morbidade pelo choque térmico provocado ?pelo esforço? é maior que o golpe passivo (clássico) (Hubbard et al., 1997). Neste artigo, o foco principal será nas doenças provocadas pelo calor em condições de esforço.
Epidemiologia e Fatores de Risco
Diversas características pessoais, condições de saúde, medicamentos e fatores ambientais estão associados com graves doenças provocadas pelo calor (Tabela 1). Apesar de extremamente raras, há casos de doenças graves provocadas pelo calor mesmo em indivíduos de populações de baixo risco (em boa forma física e aclimatados ao calor) que tomam as devidas precauções e que já tinham sido expostos a essas condições muitas vezes, (Gardner et al., 1996; Kark et al., 1996). Isso sugere que algumas vítimas eram inerentemente mais vulneráveis em um determinado dia e/ou que algum evento específico desencadeou aquele grave quadro.
Tabela 1 - Fatores que predispõem graves condições provocadas pelo calor
Historicamente, esses casos inesperados foram atribuídos à desidratação (que compromete a termorregulação e aumenta o esforço cardiovascular), mas hoje há suspeitas de que um evento anterior (ex. doença ou lesão) pode fazer com que as vítimas sejam mais suscetíveis às doenças mais graves provocadas pelo calor (Kark et al., 1996). Uma das teorias é que a presença de história de lesão ou de doença provocada pelo calor pode ativar a resposta de fase aguda (ou seja, aumento das proteínas C-reativa na corrente sanguínea, febre e outras mudanças metabólicas na resposta à inflamação) e intensificar a hipertermia do exercício, induzindo assim doenças graves e inesperadas provocadas pelo calor (Bouchama et al., 1993). Outra teoria é que essa infecção anterior pode produzir citocinas pró-inflamatórias que desativam a capacidade das células de se protegerem contra temperaturas extremamente altas (Sonna et al., 2004). A desidratação é associada a apenas 18% dos casos de choque térmico no exército (Carter et al., 2005).
A maioria dos casos de doenças provocadas pelo calor sob condições de esforço acontece nos meses de verão (Kark et al., 1996), mas as taxas de incidência são maiores quando o clima é quente, independentemente de ser ou não verão (Sparling, 1997). O risco das doenças pelo calor sob esforço nos treinos militares aumenta de maneira progressiva conforme as temperaturas do globo/bulbo úmido estão acima de 18,3°; os casos costumam acontecer principalmente com exercícios extenuantes (ex. corrida) e após diversos dias consecutivos de clima quente (Kark et al., 1996). A falta de aclimatação ao calor é um fator importante que determina a intolerância ao calor (alta sensibilidade para o calor ou desconforto no calor) e doenças provocadas pelo calor (Armstrong et al., 1990a). Da mesma maneira, os recrutas do exército dos EUA provenientes de estados localizados na região norte são mais suscetíveis a essas doenças que aqueles da região sul (Carter et al., 2005). Essa última observação sugere que a experiência anterior de exposição contínua ao calor desempenha um papel protetor posteriormente.
Há evidências de que os casos de choque térmico sob condições de esforço estão aumentando. O exército americano testemunhou um aumento acentuado nas internações causadas pelo choque térmico na última década, apesar da queda de doenças menos graves provocadas pelo calor (Carter et al., 2005). Os motivos para este aumento no número de internações não são claras, mas pode incluir mais ênfase em atividades de corrida no treinamento militar (Ministério do Exército e Aeronáutica, 2003) e possivelmente o aumento do uso de suplementos nutricionais contendo efedra (Oh & Henning, 2003). As fatalidades associadas ao choque térmico no futebol americano diminuíram de maneira significativa de 1960 a 1990, mas desde 1994 parece estar aumentando novamente. Isso pode estar parcialmente associado ao uso de alguns suplementos nutricionais (Bailes et al., 2002). O uso de estimulantes (ex. Efedra, cocaína, heroína e metanfetamina) está associado ao risco aumentado de choque térmico (Crandall et al., 2002; Marzuk et al., 1998). Os estimulantes aumentam a produção de calor metabólico e podem comprometer a dissipação do calor, aumentando assim a temperatura corporal (Crandall et al., 2002). Por exemplo, dados epidemiológicos coletados em três grandes áreas metropolitanas dos EUA também mostraram que o risco de óbito por causa da overdose de cocaína aumenta de maneira acentuada com o clima quente (Marzuk et al., 1998).
Alto índice de massa corporal (IMC) e forma física insatisfatória também são importantes fatores de risco para as doenças relacionadas ao calor. O risco de recrutas da Fuzilaria Naval de apresentar doenças provocadas pelo calor em condições de esforço aumenta três vezes quando o IMC é = 22 kg/m2, ou quando o tempo da corrida é de aproximadamente 2,5 km em 12 minutos. Além disso, o risco aumenta em oito vezes para recrutas com IMC mais alto e que correm mais devagar (Gardner et al., 1996). Apesar de alto IMC e corrida lenta serem importantes fatores de previsão de doenças provocadas pelo calor em situações de esforço durante a primeira semana de treinamento básico, na semana 14 (última semana), apenas o tempo de corrida era preditiva dessas doenças (Wallace et al., 2006).
O sexo e a etnia influenciam o risco das doenças provocadas pelo calor sob condições de esforço. A probabilidade de negros e hispânicos serem hospitalizados por essa causa é menor que a de caucasianos. Da mesma maneira, as mulheres caucasianas são hospitalizadas por esse diagnóstico aproximadamente quatro vezes mais que as negras e hispânicas (Carter et al., 2005).
Transtornos genéticos podem modificar o risco das doenças provocadas pelo calor em condições de esforço. Há relatos de casos que sugerem que a presença do traço de anemia falciforme (apresentar um dos dois genes necessários para causar produção anormal de hemoglobina e distorção das hemácias, que ficam com formato de foice) podem aumentar o risco das graves doenças provocadas pelo calor (Kerle & Nishimura, 1996). A presença do traço de célula falciforme é mais prevalente em populações de negros e asiáticos ? essas populações correm mais risco se sua condição física não for boa, se estiverem desidratados ou expostos a ambientes quentes. As células em foice podem diminuir o fluxo sanguíneo e a capacidade das hemácias de transportar oxigênio, o que pode causar danos às paredes capilares, coagulação sanguínea e lesões localizadas devido ao suprimento inadequado de sangue. Além disso, indivíduos suscetíveis à hipertermia maligna, uma doença genética caracterizada por contrações musculares extremas e rápido aumento na temperatura corporal, quando expostos a determinados anestésicos, podem ter risco aumentado para doenças provocadas pelo calor em condições de esforço (Muldoon et al., 2004).
Respostas ao Estresse pelo Calor e Desenvolvimento das Doenças Provocadas pelo Calor
O estresse pelo calor refere-se a processos ambientais e metabólicos que aumentam a temperatura corporal. O calor metabólico é liberado pelos músculos esqueléticos ativos e são transferidos da parte central do organismo para a pele, onde é dissipado principalmente pela evaporação do suor. Se esse calor não for dissipado, a temperatura central aumentará rapidamente. A troca de calor, da pele para o meio-ambiente, é comprometida por altas temperaturas do ar, alta umidade, baixa movimentação do ar próximo à pele, radiação solar, radiação provenientes das superfícies quentes (ex. rochas, solo, edifícios) e vestimentas, incluindo roupas esportivas protetoras, tais como protetores para ombros e capacetes (Brothers et al., 2004) usados no futebol americano (Bergeron et al., 2005; Fowkes et al., 2004; Kulka & Kenney, 2002).
A temperatura corporal também aumenta na presença de febre. A febre é resultado do aumento do set-point de termorregulação, ou seja, da temperatura corporal na qual há um aumento do suor e da circulação sanguínea para a pele a fim de dissipar o calor. A temperatura corporal de indivíduos com febre aumenta durante a exposição ao calor e a prática de exercícios. Esse aumento pode envolver elevação dos níveis de prostaglandinas e outros mediadores inflamatórios, tais como as citocinas (Leon, 2006).
Lesões ou infecções anteriores podem provocar a doença provocada pelo calor sob condições de esforço. A Figura 1 mostra um estudo realizado em laboratório ? descobriu-se depois que esse indivíduo apresentava vesículas infectadas na pele (celulite). Houve um aumento rápido e incomum na temperatura corporal durante o exercício físico no calor.
FIGURA 1. Lesão ou infecção anterior podem provocar doenças relacionadas ao calor provocadas pelo esforço. Esta figura representa um experimento laboratorial para um indivíduo que apresentava respostas temperaturas centrais normais a uma série de exercícios padrão em ambiente quente nos dias 1 e 2. no dia 3, ele apresentou respostas "anormais" na temperatura às sessões de exercício (linha cheia em negrito). Após completar a série de exercícios, o indivíduo reclamou de uma bolha infectada, que demandou atenção médica imediata. Após receber antibiótico oral por dois dias para tratar a infecção bacteriana, as respostas das temperaturas ao exercício voltaram aos valores normais (Day 4) (USARIEM, não-publicado).
O estresse pelo calor causado por fatores ambientais ou pelo exercício desafiam o sistema cardiovascular para que o fluxo sanguíneo na pele seja mais rápido onde há tendências de acúmulo, diminuindo o retorno venoso ao coração. Para compensar isso, o fluxo sanguíneo do fígado, rins e intestinos é desviado para suprir os músculos, pele, cérebro e pulmões. Essa redução do fluxo sanguíneo para as vísceras pode causar uma oxigenação insuficiente a esses tecidos, liberação de toxinas bacterianas no sangue, danos teciduais causados pela geração de oxidantes e óxido nítrico e temperaturas teciduais excessivamente altas ou choque térmico (>41°C) (Lambert, 2004).
A hipertermia (temperaturas corporais excessivamente altas) tem um efeito direto nas células, com a magnitude e duração do choque térmico influenciando a resposta celular, que pode ser a Tolerância Térmica Adquirida (ATT) (Kregel, 2002), a lesão tecidual ou a morte celular (Gabai & Sherman, 2002). A hipertermia, o suprimento insuficiente de sangue para os tecidos e a resposta inflamatória sistêmica podem resultar em disfunção celular, perda da integridade da membrana celular, coagulação intravascular disseminada (coágulo sanguíneo no organismo) e disfunção de múltiplos órgãos, principalmente pulmões, fígado e rins. No nível molecular, a hipertermia pode causar a degradação protéica. Vias metabólicas alteradas devido à hipertermia podem acelerar as taxas de reação químicas e contribuir para a apoptose, morte celular programada. A disfunção do sistema nervoso central é mediado pelo fluxo sanguíneo cerebral diminuído, influências do choque térmico no metabolismo do tecido nervoso e distúrbios de coagulação sanguínea.
Adaptação ao Estresse pelo Calor
A aclimatação ao calor acontece depois da exposição repetida ao calor, por dias e semanas. O estresse deve ser suficiente para provocar sudorese profusa e aumentar a temperatura central e a da pele. A aclimatização ao calor refere-se às adaptações que acontecem após meses e anos de exposição ao clima quente. Neste artigo, o foco é a aclimatação ao calor. Esse processo induz ajustes biológicos que reduzem os efeitos adversos fisiológicos do estresse pelo calor e melhora o desempenho do exercício durante a exposição ao clima quente. Os treinos de exercícios aeróbicos em clima temperado também têm efeitos benéficos na fisiologia e desempenho de exercícios sob calor, mas o treino isoladamente não substitui os benefícios da aclimatação ao calor.
A Tabela 2 apresenta uma breve descrição dos benefícios da aclimatação ao calor, que minimiza a extenuação pelo calor, ou seja, os ajustes fisiológicos de uma determinada exposição ao calor e melhora a capacidade submáxima do exercício aeróbico. Esses benefícios da aclimatação ao calor são conseguidos por meio da expansão do volume plasmático, melhora da resposta do fluxo sanguíneo na pele e do suor, e melhor equilíbrio hídrico e estabilidade cardiovascular. A aclimatação ao calor é específica ao clima (quente e seco x quente e úmido) e grau de atividade física, i.e., aclimatação a ambiente quente e seco é melhor para adaptar um indivíduo ao exercício em um ambiente seco que a aclimatação a ambiente quente e úmido e vice-versa. Entretanto, a aclimatação ao calor em climas úmidos ou secos pode melhorar significativamente as capacidades de praticar exercícios em outro clima quente.
Tabela 2 - Benefícios da Aclimatação ao Calor
A Tolerância Térmica Adquirida refere-se às mudanças celulares após uma grave exposição não-letal ao calor que permite que o organismo sobreviva à exposição subsequente, que pode ser letal. A Tolerância Térmica Adquirida e a aclimatação ao calor são complementares; a aclimatação reduz os efeitos adversos do calor fisiologicamente, enquanto a Tolerância Térmica Adquirida aumenta a probabilidade de o indivíduo sobreviver a uma determinada carga de calor (Kregel, 2002). A Tolerância Térmica Adquirida está associada à produção de proteínas especializadas (proteínas de choque térmico) que se ligam a diversas moléculas para proteger as células e acelerar a reparação tecidual. Além das ações das proteínas de choque térmico, outras vias e sistemas celulares provavelmente contribuem para a Tolerância Térmica Adquirida (Sonna et al., 2002).
Quadro 3 - Estratégias de Aclimatação ao Calor
O quadro 3 apresenta as estratégias de aclimatação ao calor que podem ser consideradas para se preparar para eventos atléticos ou tarefas ocupacionais sob clima quente. Os benefícios primários da aclimatação ao calor são o aumento da capacidade de trabalho físico associado à melhor função termorregulatória e cardiovascular e a diminuição do risco de apresentar doenças relacionadas ao calor. Uma exposição mínima ao calor de 90 minutos por dia, por 8-14 dias, com alguns exercícios físicos sob o calor, é necessária para adaptação adequada (Sawka et al., 1996). Aumento do tempo da exposição ao calor e da aclimatação provavelmente trarão benefícios adicionais (Sawka et al., 2001). Indivíduos com história de doenças provocadas pelo calor podem precisar de mais tempo para se aclimatar (Armstrong et al., 1990b).
Prevenção e Tratamento Imediato das Doenças Provocadas pelo Calor
A maioria dos casos de doenças graves provocadas pelo calor pode ser evitada induzindo-se a aclimatação ao calor e tolerância térmica adquirida, evitando a exposição ao estresse térmico excessivo e mantendo a hidratação adequada. Além disso, técnicos e treinadores devem conhecer os sinais e sintomas das graves doenças provocadas pelo calor (Tabela 4). Atletas que apresentam esses sinais e sintomas devem interromper os exercícios e ter um tempo para se recuperar em ambiente fresco, além de repor os líquidos e eletrólitos perdidos.
Tabela 4 - Sinais e sintomas de alerta das doenças provocadas pelo calor em condições de esforço (modificado de Binkley e col. (2002) e do Ministério do Exército e Aeronáutica (2003)
Quando as medidas preventivas falham, o tratamento de graves doenças provocadas pelo calor incluem o resfriamento externo do corpo, a monitoração da vítima e provavelmente a reidratação. O resfriamento corporal diminui as temperaturas teciduais e estabiliza a pressão arterial por meio da constrição dos vasos sangüíneos na pele. O resfriamento também é um fator importante para a recuperação e o prognóstico positivo (Heled & Deuster, 2006). A imersão do organismo em água fria ou gelada na pele ou encharcá-lo com água fria ou gelada, além de massagem na pele, são os métodos mais eficazes, mas o uso de banhos frios ou de lençóis gelados e bolsas de gelo, e retirada de roupas desnecessárias também são eficazes para dissipar a carga de calor do organismo (Casa et al., 2005). A imersão em água gelada reduz a temperatura corporal central em 0,15°-0,30°C por minuto (Casa et al., 2005; Costrini, 1990). Apesar de menos eficaz que a água fria, o uso de ventiladores com água fria reduz a temperatura corporal central a uma taxa de 0,06°C por minuto (Casa et al., 2005). O organismo deve ser resfriado imediatamente com o método mais eficaz disponível e continuar até que a temperatura retal seja menor que 38,5°C (Proulx, 2003). Os déficits de líquidos e eletrólitos devem ser corrigidos, -- isso deve ser conseguido por meio da ingestão ou administração intravenosa de líquidos adequados. .
RESUMO
As pessoas que participam de atividades físicas extenuantes por longos períodos em clima quente estão sujeitas a apresentar doenças provocadas pelo calor sob condições de esforço. A intensidade dessas doenças pode variar de leve a grave. Muitos fatores ambientais, físicos, fisiológicos, médicos e medicamentosos são associados a um aumento do risco de graves doenças provocadas pelo calor. Atletas, comissão técnica e equipe médica podem atenuar os riscos identificando quem são os indivíduos que correm mais risco, seguindo as diretrizes para aclimatação ao calor, reposição de líquidos e eletrólitos e estratégias de exercícios/descanso e monitorando os atletas. Quando graves doenças provocadas pelo calor acontecem, o resfriamento do organismo deve começar imediatamente. A imersão do organismo em água resfriada ou gelada ou o uso dessa água para encharcá-lo são os métodos mais eficazes para resfriar rapidamente.
SUPLEMENTO
EVITANDO AS DOENÇAS PROVOCADAS PELO CALOR SENDO S.M.A.R.T
Proteger a sua saúde durante a atividade física em clima quente é tão simples quanto se lembrar de manter o organismo refrescado e usar o bom senso. A exposição ao calor pode causar doenças graves, até mesmo fatais, como já foi observado em mortes de atletas de elite durante treinos e competições esportivas e de centenas de pessoas durante ondas de calor no mundo todo. As doenças provocadas pelo calor podem ser evitadas na maior parte dos casos! Siga as dicas básicas e evite as lesões pelo calor sendo S.M.A.R.T. (inteligente).
Schedule (Agenda) Agende as sessões de exercícios cuidadosamente para evitar as temperaturas mais altas, marcando esses treinos para o horário da manhã e da tarde, evitando assim o horário de pico.
Monitore os atletas que apresentam alto risco. Técnicos, atletas, preparadores físicos e atletas devem aprender quais são os sinais e sintomas das graves doenças causadas pelo calor e devem monitorar os que podem apresentar o risco. Atletas que estiveram doentes recentemente, por exemplo, com gripe ou lesão muscular, aqueles com história de doenças provocadas pelo calor, os que não estão aclimatados ao exercício sob calor e aqueles que são altamente motivados para serem bem-sucedidos nos respectivos esportes correm mais risco.
Sinais e sintomas de alerta das doenças provocadas pelo calor em situações de esforço (modificado de Binkley et al. (2002) e do Ministério do Exército e Aeronáutica (2003).
Sinais de Possível Exaustão pelo Calor
Pulso (frequência cardíaca) alta
Temperatura retal normalmente <40,0°C
Cefaléia
Tontura/desmaio
Náuseas/vômitos
Marcha instável
Fraqueza
Cãibras musculares
Calafrios, tremores
Sinais de Provável Choque Térmico (Insolação)
Pulso fraco e rápido
Temperatura retal geralmente >40.5°C
Alterações no sistema nervoso central
Confusão/desorientação
Agitação/agressividade
Olhar parado /apatia
Comportamento irracional
Marcha cambaleante
Delírio
Convulsões
Falta de respostas, coma
Pele quente e úmida ou pele seca
Vômitos
Evacuações involuntárias
Hiperventilação<
Aclimatar e Ajustar - as roupas usadas e os exercícios ao clima. Reserve no mínimo 8 -14 dias para a aclimatação, aumentando gradualmente o tempo e a intensidade do exercício sob calor. Reduzir a intensidade do trabalho e o tempo da exposição ao calor em condições extremamente quentes e úmidas. Use roupas claras e soltas.
Recuperar e Repor. A recuperação deve ocorrer em ambiente fresco por um tempo suficiente para diminuir a temperatura corporal. Lembre-se também de beber durante o exercício para repor os líquidos e eletrólitos. Bebidas esportivas podem ajudar a repor os líquidos e minerais perdidos pelo suor.
(Think) - Pense em procedimentos de emergência para resfriar os atletas que possam sofrer as doenças causadas pelo calor. Tenha planos prontos para rapidamente adotar procedimentos eficazes para resfriar o organismo, principalmente por meio da imersão do atleta em água fria ou gelada.
SUGESTÕES DE REFERÊNCIAS ADICIONAIS
Binkley, H.M., J. Beckett, D.J. Casa, D.M. Kleiner , and P.E. Plummer (2002). National Athletic Trainers. Association Position Statement: Exertional Heat Illness. J. Athl. Train. 37(3):329-343.
Bouchama, A., and J.P. Knochel. Heat stroke (2002). N. Engl. J. Med. 346 (25):1978-1988.
Carter, R., 3rd, S.N. Cheuvront, J.O. Williams, M.A. Kolka, L.A. Stephenson, M.N. Sawka, and P.J. Amoroso (2005). Epidemiology of hospitalizations and deaths from heat illness in soldiers. Med. Sci. Sports Exerc.37(8):1338-1344.
Casa, D.J. (1999). Exercise in the heat. II. Critical concepts in rehydration, exertional heat illnesses, and maximizing athletic performance. J. Athl. Train. 34(3):253?262.
Casa, D.J., L.E. Armstrong, M.S. Ganio, and S.W. Yeargin (2005). Exertional heat stroke in competitive athletes. Curr. Sports Med. Rep. 4(6):309-317.
Department of the Army and Air Force (2003). Heat stress control and heat casualty management. Washington, D.C.:Headquarters, Department of the Army and Air Force. http://www.army.mil/usapa/med/DR_pubs/dr_a/pdf/tbmed507.pdf
