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SSE 18: Respostas do organismo de crianças à prática de exercícios em climas frios: Implicações na saúde

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BAR-OR O. Respostas do organismo de crianças à prática de exercícios em climas frios: Implicações na saúde. Sports Science Exchange. Gatorade Sports Science Institute , v. 7, n. 4, jun/ago. 1998. Disponível em: http://www.gssi.com.br/. Acesso em xx.xx.200x.

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Autores: Oded Bar-Or

Principais tópicos

- Devido à amplitude da massa corporal, as crianças estão mais sujeitas a perderem calor em climas frios que os adultos.
- As perdas mais significativas ocorrem com crianças que praticam atividades aquáticas, devido à alta condutividade da água.
- As crianças que praticam atividade física fora da água, ou seja, em terra, produzem uma quantidade de calor bastante elevada, pois além da maior massas corporal relativa elas ainda apresentam um segundo aumento, devido à vasoconstrição periférica.
- As crianças com pouca gordura subcutânea, sofrem o risco de terem hipotermia e inanição pelo frio.
- O frio aumenta os riscos de crises asmáticas induzidas pelo exercício.

 
Introdução

O exercício associado ao calor ambiental induz ao estresse causado pelo calor. O efeito sinérgico, quando excessivo, influencia no desempenho físico e cognitivo, causa hipertemia e pode ser prejudicial mesmo para pessoas saudáveis física e mentalmente. Em contrate, quando o organismo é exposto a um ambiente frio, o exercício provoca a termogenese, a qual ajuda o organismo a prevenir o resfriamento excessivo do corpo. Portanto, a ocorrência de hipotemia, quando a temperatura interna é de 35º C ou menos, ocorre mais comumente durante o período de repouso quando comparada a sua ocorrência durante o exercício.
De fato, em atividades físicas moderadas ou mesmo intensas praticadas em climas frios, a produção metabólica de calor comumente é superior à perda para o meio ambiente. Como resultado, verificamos que quando o indivíduo fica exposto a temperaturas muito baixas, a temperatura interna se eleva durante o exercício. Como exemplo temos o hóquei no gelo, (Mc Dougall, 1979; Paterson et al.,1977) observaram que durante a prática desse esporte as crianças apresentaram uma produção de calor tão elevada que promoveu o desenvolvimento de uma intensa sudorese, este fato ocorreu mesmo quando as crianças estavam vestidas com roupas leves.
Isso não é o que ocorre quando a atividade física é feita na água. Embora o ar seja considerado um isolante térmico, a água é um excelente condutor. O "calor específico", ou seja, quantidade de calorias necessárias para elevar em 1ºC a quantidade de 1g de substância da água é aproximadamente 4.000 vezes superior à do ar e a condutividade térmica da água aproximadamente 25 vezes superior à do ar. Como resultado verificamos que as perdas de calor durante a prática da natação são de 25 a 30 vezes mais rápidas comparativamente ao ciclismo e corridas em temperaturas ambientais semelhante (Nielsen, 1978). O maior gradiente de trocas de temperatura entre a pele e o meio ambiente também provoca uma maior perda de calor.
Outro fator que deve ser considerado é a espessura da camada subcutânea de gordura. Devido ao fato da gordura ser um isolante térmico, quanto maior for a sua espessura subcutânea esta vai promover uma melhor prevenção do calor, especialmente no meio aquático. (Bergh et al.,1978; Keating, 1978). Este fato pode ser facilmente verificado quando da análise do retorno do sangue cutâneo, pois ocorre uma diminuição significativa na conversão do calor do meio interno para o periférico. Portanto, a perda de calor do organismo é limitada pela mais lenta condução através da camada de gordura.
A quantidade de calor perdido depende também do tamanho da área superficial da pele "skin area"(AS). Em pessoas jovens a AS é a maior por unidade de massa corporal. Por exemplo, uma criança com 8 anos de idade cuja estrutura e massa corporal são respectivamente 128 cm e 25 kg, tem uma relação entre a AS e massa corporal de 380cm/Kg. Compare isso com uma relação AS/massa de 280cm/Kg em um adulto de 20 anos, com estatura de 1.77m e peso de 64kg. Baseando-se apenas nessa diferença geométrica, supondo-se não haver diferenças fisiológicas, podemos deduzir que a criança apresentará uma perda de calor mais rápida via convecção, condução e radiação que o adulto, num ambiente frio.

 

Revisão bibliográfica

O primeiro estudo sobre os efeitos fisiológicos do frio e sua relação com a idade, demonstrou as desvantagens da criança. Sloan & Keating (1973) monitorou crianças de ambos os sexos com idade que variou de 8 a 19 anos, e que nadavam numa piscina cuja água apresentava uma temperatura de 20.3ºC e nadavam a uma velocidade de 30m/s. Deve-se ressaltar que todos praticavam natação regularmente em seus clubes. Os resultados demonstraram que a relação entre o resfriamento do corpo e a idade era inversamente proporcional ; os jovens adultos tiveram pequenas ou mesmo nenhuma alteração na temperatura oral ao final do teste de natação, enquanto a maioria dos mais jovens apresentaram um decréscimo da temperatura de 2 ou mais graus centígrados. Além deste fato, os nadadores mais velhos nadaram por cerca de 30 min., enquanto os mais jovens foram retirados da piscina após 18 a 20 min., devido ao desconforto provocado pelo frio. Estes resultados foram atribuídos à relação AS/massa e à espessura das dobras cutâneas.
Somente 20 anos após esse trabalho, outro foi realizado tentando demonstrar a relação entre a idade e o comportamento do organismo em ambientes frios. Smolander et al (1992) trabalhou com dois grupos de diferentes faixas etárias: o primeiro com idade entre 11 e 12 anos e o segundo grupo na faixa de 19 a 34 anos. Ambos os grupos foram colocados em ambientes aerados cuja temperatura se manteve a 5ºC. O tempo de exposição foi de 60 min. Após este fato, foram colocadas em câmara fria 20 min e após esse período pedalaram por 40 min. A 30% do Vo2max. Baseando-se nas observações prévias de Sloan & Keatinge os autores desenvolveram a hipótese de que a velocidade de resfriamento do corpo das crianças é maior que a dos adultos. Alguns resultados foram surpreendentes: enquanto os adultos mantiveram a temperatura retal durante os 60 min. de exposição ao frio, as crianças tiveram um pequeno aumento. Em compensação, devido a relação entre AS e massa corporal ser maior nas crianças (320 contra 250cm2 / Kg) do que nos adultos, as crianças tiveram um aumento na produção metabólica de calor por Kg de peso corporal, que foi medido pelo consumo de oxigênio. Também elas apresentaram uma vasoconstrição mais eficiente nos membros, que foi observada em outro estudo com crianças e adultos em condições ambientais moderadas de temperatura, pois esta ficou na faixa de 16 a 20ºC (Araki et. Al., 1980; Wagner et al., 1974).
Portanto, torna-se evidente que mais pesquisas são necessárias para um melhor conhecimento do comportamento do organismo da criança, em atividade física, quando o clima é frio. As seguintes conclusões podem ser inferidas:

1. Mesmo tendo uma maior AS por massa corporal, as crianças conseguem manter por cerca de 60 min. a temperatura corporal mesmo quando a temperatura ambiental esteja a 5ºC. Este fato ocorre quando a criança combina períodos de exercício com descanso.

2. Quando exercitando-se em água fria, nadando, jogando pólo aquático ou praticando outro esporte aquático, as crianças apresentam uma grande desvantagem, comparando com adolescentes e adultos jovens, na capacidade de prevenir a instalação de uma hipotermia. A água fria é o principal causador desta desvantagem.

3. As crianças menores (mais jovens), apresentam um resfriamento do corpo mais rápido, no meio hídrico.

4. Mesmo não havendo dados na literatura a respeito da termoregulação do organismo da criança nos casos em que a temperatura está abaixo de 5ºC, o autor deste artigo toma a liberdade de manifestar seu pensamento a respeito do assunto: "em condições ambientais críticas, o organismo da criança compensa a grande diferença entre AS e massa corporal elevando o gradiente de trocas entre a pele e o ambiente, ocasionando uma queda na temperatura interna.

Considerações relacionadas com a saúde

Os três principais efeitos, na criança, da atividade física praticada em ambientes frios são: hipotermia, inanição pelo frio e broncoconstrição. Tanto crianças como adultos são grupos vulneráveis de alto risco, quando expostos ao frio (veja revisão sobre o assunto em Bar-Or, 1986).

Hipotermia: os indivíduos subnutridos estão mais sujeitos à hipotermia, pois apresentam dobras cutâneas mais finas e uma diminuição na capacidade subcutânea de isolar o frio (Brooke, 1973). Incluídas neste grupo estão pessoas com fibrose cística e anorexia nervosa. Pesquisas feitas com o último grupo (Davies et al., 1978; Mecklenburg et al., 1974; Walkeling & Russel, 1970) observaram que a temperatura em repouso deste grupo era em média de 36ºC, este fato foi observado em ambiente termoneutro. Ocorria uma diminuição quando a temperatura ambiental era fria e se elevavam quando a temperatura ambiente era quente. Como foi demonstrado por Davies et al. Em 1978, a elevação da temperatura retal de indivíduos anoréxicos, submetidos a um exercício de 65% do VO2 max. É mais lenta quando comparada com a de indivíduos saudáveis utilizados com controle. Foi sugerido por Mecklemburg et al (1974) que a deficiência acima citada não é reflexo apenas da diminuição no isolamento térmico subcutâneo, devido à falta de gordura, mas também a uma disfunção hipotalâmica.

Crianças de baixo peso também constituem um grupo de risco hipotérmico. Como já foi acima exposto, quanto maior for a relação entre AS e a massa corporal, existe uma maior tendência a perderem mais rapidamente o calor, no meio aquático.

Inanição pelo Frio (Congelamento):

Embora qualquer pessoa esteja sujeita ao "congelamento" da pele em áreas que ficam mais expostas ao frio como a face do rosto, queixo, nariz e orelhas, mesmo quando cobertas por roupas podem apresentar problemas na ponta dos dedos, dedos do pé, mamilos e genitália masculina: é necessário salientar que algumas pessoas são mais suscetíveis. Entretanto, não existem dados epidemiológicos a cerca da prevalência de "congelamento" em diversas faixas etárias, embora aspectos fisiológicos demonstram que elas são mais suscetíveis.

Entretanto, não existem dados epidemiológicos a cerca da prevalência de "congelamento" em diversas faixas etárias, embora aspectos fisiológicos demonstram que elas são mais suscetíveis, principalmente devido ao estímulo em aumentar a vasoconstrição periférica; este fato foi observado em menor intensidade em adolescentes e adultos jovens. Também o fluxo sangüíneo inadequado pode ter sua influência, principalmente nas extremidades. Este fato apresenta maior incidência em adultos e idosos, podendo eventualmente ocorrer em adolescentes, particularmente do sexo feminino.

Broncoconstrição: Outra anormalidade que ocorre em crianças devido ao frio é a broncoconstrição. Este fato ocorre com relativa freqüência tanto em crianças como em adolescentes que se exercitam (Bar-Or, 1983). Essa perda de calor aumenta consideravelmente durante a prática de exercícios intensos, isto por que a ventilação pulmonar aumenta significativamente.

Implicações práticas

Os efeitos potencialmente deleteriosos do exercício praticado em ambientes frios, para as crianças podem ser prevenidos, para tal recomenda-se os seguintes cuidados:

1. Sempre que possível, elevar a temperatura da água da piscina para 1 a 2ºC acima da usada pelos adultos.

2. Durante a atividade física na água, para prevenir uma hipotermia, aconselhar a criança a sair da piscina a cada 15 a 20 min.

3. Crianças pequenas e magras devem receber uma supervisão especial.

4. A sensação de frio normalmente é desagradável para a criança, estimulando-a a sair da água. Porém atletas mais ambiciosos ignoram essa sensação e preferem continuar treinando. É aconselhável, nesses casos, orientá-los a sair da água.

5. Para nadar por percursos longos e em águas frias é necessário aplicar uma camada de 1 a 2 mm. De lanolina ou vaselina.

6. Use diversas camadas de roupa seca quando a atividade é desenvolvida em ambientes abertos e em temperaturas próximas ao mesmo abaixo do ponto de congelamento. Proteções especiais devem ser feitas nos dedos da mão e do pé. Sempre que houver ventos gelados, o rosto da criança deve ser adequadamente protegido.

7. A boca e o nariz de crianças asmáticas, devem ser protegidos com máscaras cirúrgicas ou lenços, quando o exercício for feito em ambientes frios (10ºC ou menos). É aconselhável ter um tubo de ar comprimido, pois quando necessário o uso deste, ele vai umidificar e aquecer o ar inspirado (Schachter et al., 1981). A inalação do ar pelo nariz é o ideal, pois desta forma o mesmo estará mais úmido e mais aquecido, porém esta prática é difícil de ser efetuada quando a pessoa está desenvolvendo atividades físicas de intensidade moderada ou intensa, pois a respiração via nasal é deficiente na captação de ar.

8. As crianças asmáticas devem ser aconselhadas a reduzir a intensidade dos exercícios quando feitos em ambientes frios e abertos.

 

Sumário

Devido a elevada relação entre a área da superfície corporal e o seu peso, a velocidade de perda de calor pelo organismo da criança é maior que a do adulto. Quando a criança se exercita em ambientes abertos e frios, cerca de 5ºC, ela apresenta a vantagem da compensação devido ao aumento da vasoconstrição periférica e da maior produção de calor metabólico. Entretanto, quando a criança é imersa em água, a elevada condutividade deste meio induz grandes perdas de calor por condução. Nesses casos pode ocorrer uma hipotermia, principalmente quando as crianças são pequenas e magras. O aumento da vasoconstrição periférica nas extremidades é um fator de risco para que ocorra o "congelamento" da extremidade afetada. O ar frio facilita a ação dos fatores determinantes das crises asmáticas.

 

Referências

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