SSE #65: Preparação de Atletas Para Competirem em Clima Quente: Uma Metodologia para Aclimatação
Autores: Ronald J. Maughan
Principais tópicos
- O calor e a desidratação são os piores adversários de um atleta.
- A exposição ao calor e a desidratação afetam o desempenho e seus efeitos adversos são aditivos.
- A aclimatação reduz o impacto negativo do calor no desempenho atlético.
- A aclimatação é mais eficiente quando o exercício é praticado em ambientes quentes; calor sem exercício e exercício sem calor são menos eficientes.
- A aclimatação pode ser feita em um quarto aquecido ou treinando em um local cuja temperatura seja semelhante àquela onde a competição se realizará.
- O mecanismo fisiológico da aclimatação só atinge seu máximo após 7 a 14 dias.
- O volume e a intensidade de treinamento deve ser reduzida no início do processo de aclimatação, e o aumento deve ser gradativo. Durante o processo de aclimatação o treinamento de alta intensidade deve ser reduzido significativamente.
- É necessário que o aquecimento pré-competitivo tenha uma intensidade menor para que a temperatura interna antes do treinamento ou da competição não se eleve em excesso.
- É essencial que a monitoração da resposta à aclimatação seja individual - cada pessoa responde de maneira diferente à atividade física feita em ambientes quentes.
- O registro do peso corporal, do volume e da cor da urina excretada e dos sintomas subjetivos devem ser feitos pelos atletas e periodicamente revisados pela comissão técnica.
- A aclimatação aumenta as necessidades de fluidos devido ao aumento da sudorese.
- A desidratação afeta o desempenho e anula os efeitos benéficos da aclimatação.
- A ingestão adequada de um fluido apropriado antes, durante e após o treinamento ou competição é essencial para assegurar uma resposta ótima ao exercício praticado no calor.
Introdução
Do ponto de vista fisiológico, o exercício no calor é o estresse mais severo para um atleta. O fato de que a maioria dos eventos esportivos são realizados em condições ambientais adversas, faz com que seja imperativo que os treinadores e sua comissão técnica observem a intensidade das mudanças climáticas e entendam o quanto é importante a aclimatação de seus atletas quando competirem em ambientes quentes. O desempenho esportivo é invariavelmente prejudicado quando efetuado em climas quentes, e pior ainda, o calor impõe sérios perigos para a saúde do atleta. A história das maiores maratonas realizadas em clima quente, nos fornece muitos exemplos dos perigos do calor, entre os quais incluímos Dorando Pietri na maratona do Jogos Olímpicos de 1908 em Londres, Jim Peters na maratona dos Jogos Imperiais realizados em Vancouver em 1954 e Gabrielle Andersen-Schiess em 1984 na maratona dos Jogos Olímpicos em Los Angeles. Os atletas participantes de corridas curtas e de esportes do tipo "stop and go" como o rúgbi, futebol e futebol americano também sentem os problemas devido ao calor. O acontecimento mais comum na maioria desses eventos é a temperatura ambiente elevada. Os atletas que normalmente vivem, treinam e competem em climas temperados, apresentam uma desvantagem significativa quando o evento é realizado em condições adversas de temperatura e umidade relativa do ar. Neste caso, uma estratégia deve ser estabelecida para minimizar a desvantagem estabelecida inicialmente.
As informações apresentadas neste "Sports Science Exchange" estão calcadas na literatura científica e na experiência pessoal adquirida com os atletas ingleses que se preparavam em Tallahassee, na Flórida, para os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Esse local de treinamento foi escolhido por ter as condições climáticas semelhantes às de Atlanta.
Exercício em ambiente quente
Cerca de 75% das trocas energéticas durante os exercícios são liberadas na forma de calor, que inevitavelmente promove um aumento da temperatura corporal. Em ambientes frios, a maior parte do calor produzido é rapidamente transferido para o ar (Nadel, 1988), porém quando a temperatura ambiente é superior à temperatura corporal ganha-se calor, e a temperatura do corpo pode se elevar a níveis perigosos. Em ambientes com elevada temperatura e baixa umidade, o único meio efetivo de perder calor é pela evaporação do suor excretado pela pele. A evaporação do suor é um meio efetivo de dissipar grandes quantidades de calor e limita a elevação da temperatura interna a um máximo de 3°C a 4°C no total e somente em condições extremas de calor e umidade relativa do ar.
A resposta fisiológica do exercício ao calor é determinada em parte pela intensidade do mesmo, e em parte pelo grau de estresse que o calor ocasiona. Com uma mesma carga de trabalho, a prática de exercícios no calor promove um aumento na freqüência cardíaca assim como um aumento no débito cardíaco e também um aumento na temperatura interna e na da pele, comparativamente com o mesmo exercício praticado em ambientes frios (Rowell, 1983). A prática de exercícios em ambientes quentes usualmente promove um aumento na concentração sanguínea de lactato, e existe evidências de uma depleção mais rápida do glicogênio muscular. Essas alterações cardiovasculares e metabólicas são acompanhadas de uma sensação subjetiva de um esforço maior, assim como de uma diminuição na capacidade de se exercitar.
Figura 1: Tempo para a exaustão em quatro condições ambientais. Note que existe uma temperatura ambiente ótima para um melhor desempenho nos exercícios.
Figura 2: A combinação entre a temperatura ambiente e a umidade relativa do ar determina a intensidade do estresse ocasionado pelo calor. As condições ambientais típicas de Atlanta em 1996 demonstram a severidade do estresse determinada pelo calor e enfrentada pelos atletas.
Tempo para exaustão
O desempenho em todos os exercícios de resistência (os quais nós definimos como aqueles que duram mais de 20-30 min.), fica reduzido em situações de estresse pelo calor e não há como evitar que tal fato ocorra. Um estudo realizado em condições laboratoriais (Figura 1) demonstrou que: o tempo de trabalho em uma bicicleta ergométrica a uma determinada intensidade pode ser mantido por 94 min. A uma temperatura de 11°C, e se reduz para 81 min. Quando a temperatura se elevou para 21°C e para 51 min. Quando a temperatura se elevou para 31°C (Galloway & Maughan), 1995). Nas condições climáticas prevalentes nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996 e em muitos outros eventos esportivos, o efeito danoso do calor prejudica bastante o desempenho dos atletas. Recomenda-se que os exercícios pesados não devem ser realizados em ambientes quentes e úmidos (Figura 2), porém a maioria dos eventos esportivos raramente são cancelados quando as condições ambientais são desfavoráveis ao extremo. Se um atleta está desidratado antes de uma competição ou treinamento se iniciar, este fato ocasiona uma diminuição no seu rendimento e esta é aumentada quando o exercício é realizado no calor. Da mesma maneira, participantes de eventos de curta duração também sofrem devido ao calor, entretanto os efeitos das condições climáticas adversas podem ser reduzidos se for dada uma cuidadosa atenção ao processo de aclimatação e à ingestão de líquidos.
A expectativa é de que os competidores de eventos realizados em ambientes fechados sofram menos, devido ao fato desses locais terem, comumente, ar condicionado. Este fato porém não garante uma segurança total, pois os atletas que participam de eventos em ambientes fechados também podem sofrer os efeitos do calor e da umidade relativa do ar.
A exposição ao calor, mesmo sem a prática de exercícios pode ocasionar vários problemas com sintomas de dor de cabeça, náuseas, tonturas e a sensação de fadiga (Wenger, 1988). Algumas vezes a exposição em ambientes quentes é inevitável, e nas horas em que o competidor é exposto a essas condições climáticas adversas, eles começam a se desidratar, e os efeitos adversos do calor do desempenho se manifestam, mesmo quando nas condições ambientais do local da competição estiver mais frio e mesmo quando o evento for de curta duração. em um estudo laboratorial, em que foi provocada uma desidratação equivalente a 2,5% do peso corporal, induzida antes do exercício, pelo uso de uma sauna, ocorreu uma redução de 30% na capacidade de trabalho quando os testes realizados em ambientes frios e por cerca de 7 min. (Nielsen et al., 1982). Outro experimento cuidadosamente controlado, realizado em condições de competição, demonstrou que corredores de 1.500m correram 3.7% mais lentamente, quando estavam com uma desidratação equivalente a 2% do peso corporal antes do exercício; 3,7% representa uma piora de 6 seg. para corredores de 1.500m de nível internacional (Armstrong et. al., 1985).
No sentido de minimizar o impacto dos efeitos adversos do calor, e da umidade, o técnico e seus assessores devem considerar três aspectos: 1) a estratégia de reidratação, 2)a estratégia de aclimatação, e 3) o estilo de vida. Esta publicação enforcará a segunda recomendação.
Respostas da aclimatação ao calor
A exposição regular a condições de calor e umidade, causam uma série de adaptações fisiológicas que servem para reduzir os efeitos adversos no desempenho esportivo e diminuir o risco da injúria provocada pelo calor. Entre as respostas encontra-se o aumento do volume sanguíneo e uma capacidade maior em produzir suor. O aumento do volume sanguíneo ajuda na demanda de sangue para suprir os músculos e a pele. A aclimatação também promove um aumento na produção de suor, e uma melhor distribuição do mesmo pelo corpo, assim como um aumento na velocidade da produção de suor. Em adição, o teor de sódio do suor tende a diminuir com o processo de aclimatação, uma vez que o organismo retém mais sódio no sentido de ajudar na conservação do volume do fluido extracelular.
A velocidade de adaptação da atividade física ao calor depende da intensidade e duração do exercício e das condições ambientais. Algumas adaptações fisiológicas podem ocorrer nos primeiros dias de treinamento no calor, e mesmo algumas sessões de treinamento no calor são benéficas (Lind & Bass, 1963). A maioria das adaptações fisiológicas ao estresse ocasionado pelo calor ocorrem em cerca de 7 a 14 dias de exercícios regulares em ambientes quentes. Conseqüentemente, não existem vantagens em permanecer por períodos muito prolongados nesses ambientes (Montain et. al., 1966). Também está igualmente claro que o treinamento de resistência em climas temperados confere alguma proteção aos atletas (Piwonka et. al., 1965); indivíduos treinados estão também parcialmente adaptados ao estresse pelo calor, entretanto, nós não conhecemos o quão complexo é este processo para atletas olímpicos altamente treinados. Os atletas de resistência que treinam vestindo roupa extra no intuito de aumentar a sudorese durante o treinamento em climas frios, também mostram um certo grau de aclimatação ao calor, mas este fato pode ser aumentado pelo treinamento em ambientes quentes (Dawson, 1994)
Não resta a menor dúvida de que a aclimatação é necessária para um atleta que pretende obter um ótimo resultado em uma competição a se realizar em clima quente e úmido.
A aclimatação se torna mais importante ainda quando o atleta compete mais de uma vez no mesmo dia. Os benefícios da aclimatação não podem ser nem subestimados nem ignorados.
Preparando para competir em clima quente
Existem duas maneiras para se aclimatar no intuito de competir em clima quente. Um é viver e treinar num clima semelhante àquele que se espera encontrar na competição. A outra é continuar morando no mesmo lugar e se aclimatar treinando em ambientes artificiais. Em ambos existem os aspectos positivos e negativos. Devido ao fato da capacidade de se exercitar no calor ser bem menor, a intensidade e o volume d e treinamento deve ser reduzida, pelo menos nos primeiros dias do processo de aclimatação. Este processo pode ser minimizado se o atleta vive em seu ambiente habitual, e é exposto ao calor durante o treinamento, ou durante sessões de treinamento realizadas em um ou dois dias, seguindo-se a um aumento na intensidade de treinamento nas próximas sessões. Se forem realizadas duas sessões de treinamento diariamente, uma em casa e outra em ambiente quente, as sessões de alta intensidade podem ser antecipadas, com uma sessão no calor, por um período mais longo no fim do dia. A sessão de alta intensidade deve ser realizada em ambientes frios se for efetuada em casa; se o tempo estiver quente, o treinamento deve ser realizado pela manhã quando a temperatura está mais fria.
Se a aclimatação ao calor for realizada em uma a duas sessões no dia, e o atleta está no geral reagindo bem ao ambiente quente, o treinamento pode ser gradualmente inserido um início curto (talvez de 30 a 60 min.) em baixa intensidade. Não é necessário treinar todos os dias em ambientes quentes, mas o intervalo não pode ser superior a 2 ou 3 dias. Tem sido demonstrado que o exercício efetuado em ambientes quentes a cada três dias, durante 30 dias apresentam o mesmo grau de aclimatação do que aquele obtido exercitando-se todos os dias durante 10 dias (Fein et al., 1975). Para pessoas que foram bem aclimatadas, algumas das repostas permanecem mesmo após 21 dias de permanência em um clima frio (Pichan et al., 1985). Os atletas que treinam em casa podem introduzir as sessões de aclimatação gradualmente, enquanto continuam o treinamento normal.
A desvantagem de treinar em uma câmara ou quarto quenteé que o treinamento se restringe a aparelhos como o ciclo ergômetro, esteira rolante, pular corda ou "circuit training". Porém, o tipo de exercício não é importante para o processo de aclimatação, desde que o tempo seja prolongado (60-100min.), e moderadamente cansativo e executado em ambiente quente. A intenção da sessão de treinamento é de elevar a temperatura corporal e estimular a produção de suor sem colocar o atleta em riscos desnecessários. Existem evidências de que a aclimatação é mais efetiva quando a duração do exercício é de cerca de 100 min., não há vantagem em prolongar o exercício no calor por períodos superiores a este (Lind & Bass, 1963). A prática de exercícios intermitentes parece ser mais efetiva que a de contínuos na estimulação da aclimatação. O tempo total de exposição, incluindo as pequenas paradas, deve ser ao redor de 100 min. para uma adaptação mais eficiente. Também é possível que a prática de exercícios de alta intensidade e curta duração, pode ser igualmente benéfica para o processo adaptativo; mesmo 30 min. por dia a uma intensidade igual a 75% do VO2 máx. é tão eficiente quanto é 60% do VO2 máx. por 60 min. (Houmard et al., 1990).
Se a aclimatação é feita em um ambiente quente e aberto como no campo, informações do padrão climático local são essenciais. Por exemplo, em Tallahassee, Florida, a temperatura mais alta é registrada próxima do meio do dia e a umidade relativa do ar é mais alta próximo da manhã e no fim da tarde. Como resultado, o programa de treinamento dos atletas britânicos que preparavam para os jogos de Atlanta, foi modificado levando-se em consideração as condições climáticas do local. Quando era necessário um treinamento de alta intensidade, os atletas treinavam nos períodos mais frios do dia.
A escala de tempo de treinamento deve permitir que este seja desenvolvido em poucos dias (pelo menos 3-4 e no máximo de 5 a 10 dias) de treinamento reduzido durante o horário quente do dia. Neste caso, tanto o volume total de treinamento como aquele de alta intensidade devem ser reduzidos, sendo que a redução está na dependência de como os atletas respondem ao exercício. Devido aos efeitos do calor, o treinamento nos primeiros dias deve ser executado a baixa intensidade e por um tempo relativamente curto, e aumentar o volume e a intensidade progressivamente de acordo com a adaptação dos atletas ao novo clima. Deve ser enfatizado que o tempo de duração e volume de exercícios serão administrados de acordo com as respostas individuais dos atletas. O treinamento normal pode ser reduzido por alguns dias, enquanto perdura o processo de aclimatação, e antes do início da competição. O treinamento de alta intensidade continua, assim como os períodos de descanso e recuperação devem ser aumentados até a semana final, antes da competição.
A recuperação será mais rápida e mais completa se o atleta puder se recuperar em uma área mais fria. O treinador deve ficar atento aos sinais de perigo, principalmente, com atletas que tiveram dificuldades em assimilar o processo de adaptação. A aclimatação ao calor geralmente necessita de 10 a 14 dias, períodos um pouco mais longos ou mais curtos podem ser necessários dependendo das características individuais dos atletas.
Um padrão ideal para a aclimatação de atletas ao calor pode ser a combinação do nível de exposição ao calor em casa nas últimas 1 a 2 semanas antes da viagem e um programa bem delineado de aclimatação no local da competição. Isto pode ser de particular interesse a aqueles atletas de maior risco i.e, aqueles cujas modalidades o sujeitam a uma exposição prolongada ao calor e aqueles que por exposição prolongada ao calor e aqueles que por experiência própria encontram dificuldades em se aclimatarem. É muito importante que os treinadores façam uso de todas as oportunidades que tiverem para expor os atletas ao calor e ao clima úmido, só assim eles sentirão os problemas e os identificarão, e a estratégia elaborada para o processo de aclimatação será mais efetiva. O processo de aclimatação exige que o atleta seja exposto a um estresse pelo calor suficiente para que a adaptação se concretize, porém, também é importante salientar que se o processo for muito longo, ou muito rápido, em ambos os casos, pode provocar injúrias, evidentemente ocasionadas pelo calor.
Modificações nas sessões de treinamento em clima quente
Tanto o aquecimento como a sessão de treinamento devem ser modificadas durante a preparação dos atletas em climas quentes. Por exemplo, num ambiente frio, a proposta do aquecimento é a elevação da temperatura corporal e o aumento do fluxo sanguíneo para músculos e tecidos conjuntivos. Em climas quentes a temperatura corporal não pode ser significativamente elevada devido a possibilidade evidente de uma redução no desempenho por conta da instalação de uma hipertemia e de uma desidratação. Em eventos de força de explosão, portanto, de curta duração, esta recomendação pode não se aplicar, porém, quando o exercício se prolonga por mais de 2 a 3 min. a temperatura corporal não se eleva de maneira marcante antes do exercício se iniciar. O treinador, o atleta e o preparador físico devem levar em conta algumas modificações no aquecimento para garantir que não exista nenhum comprometimento fisiológico ou psicológico na preparação. É essencial que as modificações no protocolo de aquecimento sejam feitas no sentido de melhora-lo, só assim, o atleta se sentirá confortável com as alterações feitas.
As modificações básicas no aquecimento e subseqüentemente no treinamento podem incluir exercícios realizados na sombra, redução da intensidade e duração do aquecimento, remoção de equipamentos e roupas desnecessárias, e ingestão de grandes quantidades de fluidos são necessidades imprescindíveis para que o processo de aclimatação ocorra.
Os atletas devem estar preparados e orientados no sentido de saber que a reposição de fluidos diminui em função dos ajustes fisiológicos ao calor, porém, a aclimatação aumenta as necessidades de reposição de fluidos devido ao aumento da sudorese como mecanismo de adaptação. Os atletas devem beber mais líquidos à medida que o processo de aclimatação está se instalando, no sentido de atender à maior demanda de suor que acompanha a aclimatação. Se ocorrer uma desidratação, a capacidade improvisada de tolerar o calor fica comprometida (Sawka & Pandolf, 1990). Não existe nenhum processo de adaptação à desidratação; tudo o que for feito é futil e perigoso.
Monitorização das respostas dos atletas ao processo de aclimatação
Algumas das respostas individuais obtidas durante a monitorização dos atletas submetidos ao estresse provocado pelo calor, como a velocidade e a extensão das adaptações, é um procedimento essencial na preparação de atletas para competirem em climas quentes. O treinamento em campo e outras oportunidades de se exercitar em ambientes quentes devem ser usadas para obter informações individuais do comportamento dos atletas. As informações individualizadas obtidas dos atletas são peças importantes no processo de educação para demonstrar os efeitos adversos da desidratação e da hipertermia e ainda informar o atleta como esses efeitos podem ser minimizados.
Quando expostos ao calor, os atletas ficam desidratados, mesmo quando existe uma ampla disponibilidade de fluidos. O acompanhamento regular do peso corporal fornece informações úteis sobre o estado de hidratação do atleta e se algumas precauções foram seguidas. Entretanto, essas observações só são válidas se elas forem comparadas a uma linha de base feita durante o treinamento normal antes do embarque. Todos os atletas devem saber qual o seu peso corporal ideal e qual a sua variação diária. As determinações do peso corporal devem ser feitas no mesmo horário e nas mesmas condições. O ideal seria fazer a primeira tomada pela manhã, ao acordar, antes do café ou do treinamento, mas, após a ida aos sanitários. Se isto não for possível, ela deve ser feita antes do treinamento, e, diariamente. Deve ser anotado o peso perdido durante o treinamento; essas medidas combinadas são comparadas com o padrão diário normal. A perda de peso progressiva durante alguns dias é um indicador de desidratação. Por outro lado, a perda de peso por um período longo pode também ser devido a perda de apetite e de uma ingestão inadequada de alimento, que é a resposta mais comum ao clima quente.
Os atletas devem ser orientados para fazerem as anotações de todos os sintomas subjetivos associados com a viagem, treinamento, e competição para conhecimento dos padrões que podem estar alterados. Essa importante anotação diária, associada ao peso corporal, informações sobre a eliminação de urina, ou seja, quando foi excretada (local e horário), o volume (determinado com o auxílio de um cilindro volumétrico) e a cor da urina (feita através de uma escala colorida). Essas informações somente tem valor se forem coletadas em condições de calor e comparadas com um padrão estabelecido durante um período de algumas semanas de treinamento no ambiente original. O treinador e sua comissão técnica tem a obrigação de mostrar aos atletas a importância desses dados para um planejamento futuro. Eles também devem estar atentos às anotações individuais, e dar uma atenção especial aos atletas que apresentam dificuldades em executar o plano de treinamento prescrito.
Agradecimentos
Esta revisão foi baseada em parte no documento "Acclimatization Strategy" preparado para a "British Olympic Association" antes do verão de 1996, e antes dos Jogos Olímpicos, e em parte na revisão publicada por Montain, Maughan e Sawka (1996). Os autores agradecem a todos aqueles que contribuíram na preparação desta revisão.
Referências
Armstrong,L.E., D.L. Costill., and W.J.Fink, (1985). Influence of diuretic-induced dehydration on competitive running performance. Medicine and Science in Sports and Exercise 17:456-461.
Dawson, B. (1994). Exercise training in sweat clothing in cool conditions to improve heat tolerance. Sports Méd. 17: 233-244.
Fein, L.W., E.M. Haymes, and E.R. Buskirk (1975). Effects of daily and intermittent exposure on heat acclimation of women. Int. J. Biometeorol 19:41-52.
Galloway, S.D.R., and R.J. Maughan (1995). Effects of ambient temperature on the capacity to perform prolonged exercise in man. J. Physiol. 489: 35-36P.
Houmard, J.A., D.L. Costill, J.A.Davis.J.A.Davis, J.B.Mitchell, D.D. Pascoe, and R.A.Robergs (1990). The influence of exercise intensity on heat acclimation in trained subjects. Méd. Sci. Sports Exer. 22:615-620.
Lind, A.R., and D.E. Bass (1963). Optimal exposure time for development of heat acclimation. Fed Proc. 22: 704-708.
Moutain, S.J., R.J. Maughgan, and M.N. Sawka (1966). Heat acclimatizatio strategies for the 1996 Summer Olympics. Athletic Therapy Today 1:42-46.
Nadel, E.R. (1988). Temperature regulation and prolonged exercise. In: D.R. Lamb, and R. Murray (eds). Perspectives in Exercise Science and Sports Medicine. Vol 1. Prolonged Exercise. Benchmark, Indianápolis. pp. 125-152.
Nielsen, B., R. Kubica, A. Bonnesen, I.B. Rasmussen, J. Stoklosa, and B. Wilk (1982). Physical work capacity after dehydration and hypothermia. Scandinavian Journal of Sports Scienses 3: 2-10.
Pichan G., K. Sridharan, Y.V. Swamy, S. Joseph, and R.K. Gautam (1985). Physiological acclimatization to heat after a spell of cold conditioning in tropical subjects. Aviat Space Environ. Méd. 56:436-440.
Piwonka, R.W., S. Robinson, V.L. Gay, and R.S. Manalis (1965). Preacclimitization of men to heat by training. J. Appl. Physiol. 20, 379-384.
Rowell, L.B. (1983). Cardivascular aspects of human thermoregulations. Circ. Res. 52, 367-379.
Sawka, M.N., and K.B. Pandolf (1990). Effects of body water loss on physiological function and exercise performance. In: C.V. Gisolfi and D.R. Lamb (eds.). Perspectives in Exercise Science and Sports Medicine. Vol 3. Fluid Homeostasis During Exercise. Benchmark Press. Indianápolis, pp 1-38.
Wenger, C.B. (1988). Human heat acclimatization. In: K.B. Pandolf, M.N. Sawka, and R.R. Gonzáles (eds.). Human performance physiology and environmental medicine at terrestrial extremes. Indianápolis. Benchmark. pp 153-197.
