SSE 26: Diagnóstico do Risco de Morte Súbita em Atletas Jovens com Problemas Cardíacos
Autores: Thomas W. Rowland
Principais tópicos
- O risco de morte súbita por problemas cardíacos em jovens aparentemente saudáveis é muito pequena. Na literatura médica norte-americana, são relatados cerca de 10 a 13 casos anualmente. Mesmo assumindo que este fato esteja subdimensionado, as chances de ocorrer uma tragédia em um determinado atleta é provavelmente inferior a 1:250.000.
- São quantro as principais anormalidades descritas como causadoras de morte súbita em atletas jovens com problemas cardíacos: cardiomiopatia hipertrófica (aumento patológico do coração), anormalidades congênita das artérias coronarianas (hereditária), aneurisma aórtico dissectante (diminuição do calibre da aorta e conseqüente diminuição do fluxo sangüíneo), que ocorre em atletas com a síndrome de Marfan (uma desordem congênita do tecido conjuntivo), e estenose (estreitamento) congênita da válvula que liga o coração à aorta.
- Os exames médicos rotineiros feitos na pré temporada esportiva podem evidenciar a presença da síndrome de Marfan e a estenose aórtica; o histórico de dor no peito ou tontura durante os exercícios pode evidenciar uma cardiomiopatia hipertrófica e alguma anormalidade nas artérias coronárias.
- Procedimentos diagnósticos adicionais como a ecocardiografia e a eletrocardiografia não são recomendados como rotina médica, porém além de serem técnicas caras, apresentam um alto índice de falso positivo.
- A história genética e a disponibilidade de um desfibrilador no local de práticas esportivas diminuem os risco de morte súbita. A limitação na capacidade de identificar atletas com algum risco necessita da aceitação de que a prática de esportes predispõe ao risco.
Introdução
A ocorrência de morte súbita em um atleta advinda de problemas cardíacos, durante a prática de exercícios, é uma tragédia muito emotiva. A participação em esportes, uma busca importante e saudável de benefícios físicos e psicológicos, não aceita a expectativa de que um jovem aparentemente com saúde corra o risco de vir a sofrer um colapso cardiovascular. Quando ocorre a morte súbita de um atleta de elite, o fato torna-se ainda mais contundente. Até que ponto a prática de esportes é segura? O que causa estas tragédias? Como podem ser prevenidas?
Na análise destas questões, tem sido enfocado freqüentemente a importância dos provedores de cuidados médicos, ou seja, aqueles que tem a responsabilidade de identificar os riscos que os atletas jovens correm e preveni-los de um mal cardíaco súbito quando praticando algum esporte. A morte de um atleta por problemas cardíacos nunca é esperada, e que pode ocorrer em atletas com alguma doença cardíaca que não foi diagnosticada em exames preliminares, ou em casos de disfunções. Não se admite que um coração normal "trabalhe para a morte". A grande quantidade de metodologias para diagnosticar problemas cardíacos fornece aos provedores de atendimento médico instrumentos capazes de detectar quem é vulnerável a essas condições aflitivas, e restringir a prática de atividades físicas aos níveis compatíveis com o seu estado de saúde, e assim diminuir ou mesmo eliminar o risco de morte súbita durante a prática de esportes.
De acordo com essa estratégia, estão sendo formados grupos que organizam, formulam e publicam guias práticos para diagnosticar e orientar os atletas que participam de algum tipo de competição esportiva (Maron et al., 1994; b). Fica claro, entretanto, que nem todas as doenças são diagnosticadas com um exame médico prévio. Utilizando uma metodologia médica adequada é possível prevenir mortes súbitas inesperadas em atletas jovens. Além disso, restringir a participação de adolescentes portadores de patologias cardíacas de alto risco, em competições esportivas, representa apenas uma pequena proteção aos perigos de uma morte súbita. Portanto, é preciso detectar a patologia através do exame físico e do histórico familiar - a restrição para participar de competições esportivas é uma maneira eficaz para diminuir o risco para esses jovens.
Incidência de morte súbita
Felizmente, a incidência de morte súbita em atletas é muito rara. Anualmente, nos Estados Unidos são relatadas 10 a 13 óbitos de esportistas jovens (Maron et. al.,1996; Van Camp et al., 1995), provavelmente essa estimativa está subcalculada. Se aproximadamente 4 milhões de jovens estão envolvidos com a prática de esportes, as chances estatísticas de adolescentes aparentemente saudáveis morrerem devido a uma doença cardíaca não diagnosticada, durante o ano esportivo, é de aproximadamente 1:250.000. Comparando esses números com os obtidos por outros problemas, verificamos que ocorrem cerca de 14.700 mortes em acidentes de veículos motorizados, 400 em incêndios e 250 pela inalação de fumaças tóxicas (National Sfety Council, 1985).
Alguns grupos de atletas correm um risco maior. A morte súbita por problemas cardíacos ocorre de uma maneira desproporcionalmente maior no sexo masculino, em afro-americanos, e em jogadores de basquetebol e futebol americano (Moron et al., 1996a). A explicação para essa tendência não é clara, porém ela revela a intensidade da prática esportiva e/ou as influências genético/raciais na freqüência de incidência de anormalidades cardiovasculares. Muitas das mortes súbitas ocorrem durante ou imediatamente após o treino ou competição. Este fato reforça a necessidade de proibir a participação de atletas em competições sem a prévia avaliação do risco.
Causas da morte súbita
Muitas anormalidades cardiovasculares podem levar à morte súbita, provavelmente devido a uma diminuição do fluxo sangüíneo, ou diminuição na oxigenação do músculo cardíaco e/ou causando um aumento na propensão de arritmias ventriculares fatais. Felizmente essas doenças não são comuns no grupo etário pediátrico. Autópsias realizadas em atletas jovens indicaram quatro situações cardiovasculares como principais causadoras da morte em aproximadamente 80% dos casos não esperados (vide tabela 1). Essas condições foram: 1) doenças relacionadas com o músculo cardíaco especialmente aquelas relacionadas com o aumento do coração (cardiomiopatia hipertrófica); 2) anomalias coronarianas congênitas, que causam um suprimento de sangue inadequado para o coração; 3) ruptura da aorta devido a uma diminuição hereditária do diâmetro aórtico (aneurisma aórtico comumente associado à síndrome de Marfan); e 4) estenose valvar aórtica (devido a um adensamento na válvula aórtica, o qual altera o fluxo sangüíneo do ventrículo esquerdo para as artérias coronarianas e outras artérias maiores do corpo). Infelizmente não é possível calcular a magnitude do risco de morte que essas anormalidades causam durante a prática de esportes porque as estatísticas estão baseadas na relação entre o número de atletas participantes e os que morreram. Em outras palavras, não é conhecido o número de atletas que disputam campeonatos e que apresentam alguma anormalidade sem terem complicações.
Não foram encontradas explicações para a pequena incidência de mortes súbitas em atletas jovens autopsiados (2 a 7%). Nesses casos, presumiu-se que a morte foi devido a causas não cardíacas ou arritmias ou ainda outras condições não detectadas pela autópsia.
A principal estratégia para reduzir a incidência de morte súbita nos esportes reside em orientar os atletas do alto risco que os mesmos correm e restringir a sua participação em competições. As sessões seguintes estão direcionadas para as causas mais comuns dessas tragédias, e as limitações dos examines médicos para atingir as metas.
Cardiomiopatia Hipertrófica
A cardiomiopatia hipertrófica é a causadora do maior número de mortes subtas inesperadas por problemas cardíacos em atletas jovens, contribuindo com metade dos casos relatados. Ela se caracteriza por um inexplicável e dramático comprometimento ventricular, mais intenso no espaço entre os dois ventrículos, com obstrução na cavidade ventricular esquerda. Formas mais moderadas tem sido observadas em algumas amostras obtidas em autópsias após a ocorrência de uma morte súbita.
O mecanismo para explicar como ocorre a morte súbita em pacientes com cardiomiopatia hipertrófica não está esclarecido. No entanto, não é difícil prever que o fluxo sangüíneo coronareano é inadequado, é insuficiente para encher os ventrículos e predispõe o coração para alterações no ritmo normal dos impulsos eletrolíticos , os quais estimulam a contração ventricular. Uma obstrução significativa no fluxo sangüíneo do ventrículo esquerdo para a aorta só é observado numa minoria de casos, e geralmente não está relacionado aos sintomas ou risco de morte.
Inicialmente, é opinião bem aceita que o prognóstico para os pacientes com cardiomiopatia hipertrófica não é dos mais favoráveis pois apresenta uma incidência de óbitos de 2 a 4% por ano (20 a 40% dos pacientes não sobrevivem 10 anos após o diagnóstico). Entretanto, estudos subsequentes sugerem que o histórico desses pacientes é variável, e indivíduos com cardiomiopatia hipertrófica tem sobrevivido por anos praticando esportes sem apresentarem complicações.
(Maron & Klues, 1994).
As pessoas com cardiomiopatia hipertrófica quando participam de atividades físicas tem aumentado os riscos de uma morte súbita, porém a maior incidência de mortes não ocorreu quando o indivíduo estava praticando esportes. Analisando 78 adultos, 37% morreram quando estavam dormindo ou descansando, 24% quando estavam praticando uma atividade física leve e 25% quando praticavam exercícios mais pesados como correndo ou andando (Maron et al., 1982). Como ficou caracterizado nesse trabalho, devido ao elevado número de mortes ocorridas durante a prática de atividades físicas, tornou-se praxe recomendar os portadores de cardioniopatia hipertrófica que se abstenham de praticar esportes competitivos.
A eficácia dessa estratégia está limitada pela dificuldade em detectar a cardiomiopatia hipertrófica nos atletas quando do exame médico físico. O histórico médico pode fornecer algumas informações importantes. A cardiomiopatia hipertrófica normalmente apresenta uma série de sintomas muito diferentes, e o diagnóstico positivo através do histórico familiar acontece em 20% dos casos. Aproximadamente metade dos pacientes reclamam de dor no peito, tontura, desmaios, respiração ofegante principalmente quando fazem atividade física.
Lamentavelmente, o exame físico pode ser enganosamente "normal. O sopro cardíaco estás ausente ou é inexpressivo a menos que o fluxo sangüíneo do ventrículo esquerdo para a aorta esteja obstruído. O pulso periférico pode ser bífido (duas partes) e o sopro pode ser intensificado quando o indivíduo fica em posição ortostática ( em pé) ou quando contrai os músculos abdominais segurando a respiração (manobra de Valsalva), porém esse diagnóstico nem sempre é eficiente.
Na maioria das vezes o eletrocardiograma dos pacientes com cardiomiopatia hipertrófica apresentam anormalidades, porém o teste definitivo para diagnosticar a cardiomiopatia hipetrófica reside no ecocardigrama, no qual as ondas sonoras passam através do peito e permitem visualizar as estruturas do coração quando este está batendo. O ecocardiograma de uma pessoa portadora de uma cardiomiopatia hipertrófica demonstra que a espessura do sptum ou espaço entre as paredes excede 18mm e geralmente ocorre um espaçamento do músculo cardíaco. Pode ser observado também uma movimentação anormal da válvula mitral, através da qual o sangue flui do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo, que está alterado durante a fase de relaxamento (diastólica) do ciclo cardíaco; em alguns pacientes varia o grau de obstrução da passagem do sangue que sai do ventrículo esquerdo.
Embora o diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica tenha um certo grau de confiança quando todas essas alterações estão presentes, algumas situações como o aumento do ventrículo e um eletrocardiograma atípico podem ser observados como uma resposta normal ao treinamento intensivo e por período longo ("coração do atleta"). Por outro lado surge o dilema se os atletas devem continuar a praticar esportes normalmente, ou se um sinal de cardiomiopatia hipertrófica determina que o atleta deve para de praticar esportes.
São utilizados diversos critérios que auxiliam no diagnóstico diferencial. O diagnóstico de uma cardiomiopatia hipertrófica verdadeira é caracterizado por: a) um espaçamento do septo ventricular superior a 18mm, b) dimensões do final da cavidade ventricular esquerda normal ou menor, c) hipertrofia miocardial, que regride com a cessação da prática de esportes, d) evidência de que o espessamento ventricular é específico e, e) padrões anormais do comportamento do ventrículo esquerdo como pode ser observado com o ecocardiograma de Doppler (Maron et al., 1995).
Anormalidade na artéria coronariana
A atereosclerose das artérias coronarianas é a causa mais comum de morte súbita em adultos, porém quando se refere a atletas jovens ela é extremamente rara, podendo ocorrer em casos muito raros como na hipercolesterolemia. No entanto, anormalidades conorarianas congênitas podem induzir a um risco de morte súbita em crianças e adolescentes, sendo que essas mortes podem ser aceleradas pela participação na prática de esportes vigorosos.
Diversas formas de anormalidades nas artérias coronarianas foram observadas em autópsias feitas em atletas jovens vítimas de morte súbita inesperada , essas anormalidades incluem uma ramificação defeituosa na saída da aorta, desenvolvimento incompleto da artéria, artérias coronarianas infiltradas profundamente no miocárdio e a origem anômala da artéria coronariana esquerda, que sai da artéria pulmonar e não da aorta. Na autópsia os pesquisadores verificaram também um espessamento do diâmetro das coronárias provocando um estreitamento crítico nas suas ramificações, ou seja, naquelas artérias que suprem o nódulo atrioventricular, os quais transmitem os impulsos elétricos do átrio para os ventrículos. O mecanismo específico que ocasiona a morte nessas condições não é conhecido presumivelmente é causado pelo suprimento insuficiente de sangue ao músculo cardíaco, quando a atividade física é mais intensa que a capacidade de demanda do metabolismo miocardial.
As anormalidades congênitas das artérias coronarias, que predispõem o indivíduo à morte súbita, são extremamente raros na população de um modo geral. Essas anormalidades se situam em segundo lugar na classificação das mortes subtas em atletas jovens, e isso talvez ocorra devido às dificuldades em diagnosticar clinicamente essas anormalidades nas artérias coronarianas, a manifestação mais comum é um súbito colapso e a morte sem nenhuma manifestação prévia.
O risco, de natureza oculta, das anormalidades congênitas nas artérias coronarianas foi enfatizado quando da morte do jogador de basquetebol Peter Maravich. Após uma longa carreira de sucessos, considerado como um dos melhores jogadores de campeonato colegial e como profissional, Maravich morreu subitamente após participar de um jogo recreativo quando tinha 40 anos de idade. A autópsia revelou a ausência completa da principal artéria coronariana esquerda. A artéria coronariana direita compensou a distribuição sangüínea da esquerda, devido ao hipodesenvolvimento do ramo descendente esquerdo, o qual ocasionou uma extensa distribuição do músculo cardíaco (Van Camp & Choi, 1988).
Síndrome de Marfan
A síndrome de Marfan é uma doença hereditária que se caracteriza por um relaxamento do tecido conectivo. As pesquisas determinaram que a formação defeituosa se deve à uma proteína específica, defeituosa nos pacientes acometidos dessa síndrome, ou seja, uma expressão anormal de um ou mais cromossomos. Na sua manifestação plena, os indivíduos apresentam aorta dilatada e anormalidades nos olhos (deslocamento da retina e miopia), desordem muscoesquelética (curvatura espinhal e depressão do externo), estatura alta, dedos das mãos e dos pés anormalmente longos e finos e hiperextensibilidade das juntas. Entretanto, é comum os pacientes com a síndroma de Marfan apresentarem várias combinações dessas características.
As anomalias cardiovasculares representam o maior risco mortalidade e morbidade em pacientes com a síndrome da Marfan. É comum ocorrer uma difusão progressiva na base da aorta, quando esta sai do ventrículo esquerdo, com o risco de formação de um aneurisma e uma eventual ruptura da aorta. Este defeito vem acompanhado por anormalidades na válvula mitral e na aorta. A prevenção da ruptura do aneurisma da aorta inclui o uso de beta- bloqueadores e cirurgia no espaço da base da aorta quando esta atinge de 55 à 60mm.
O risco de ruptura do aneurisma aortíco em praticantes de atividades esportivas que tem a síndrome de Marfan foi observado quando da morta súbita do jogador de voleibol Flo Hyman, astro do time olímpico de 1984 dos Estados Unidos com mais de dois metros de altura, que sofreu um colapso e morreu durante um jogo em 1985 no Japão. A autopsia do atleta revelou que o mesmo era portador de uma típica síndrome de Marfam que teve o aneurisma aortíco rompido ocorrendo um acúmulo de sangue no saco do pericárdio que envolve o coração. Esse acontecimento resultou na suspeita de que todos os atletas altos com uma síndrome de Marfam não diagnosticada são passíveis de problemas recomendando-se que os mesmos não pratiquem certos tipos de atividades físicas como treinamento de força e de resistência (Braverman, 1998; Pyrtz & McKusick, 1979).
O diagnóstico da síndrome de Marfam, depende do reconhecimento dos sintomas físicos descritos anteriormente. O exame do coração da maioria dos pacientes com a síndrome de Marfam revela ruídos associados com uma disfunção da válvula mitral.
Um exame cuidadoso do histórico familiar pode revelar que outros membros da família são portadores dessa síndrome. Quando vários dos familiares aparentemente saudáveis forem altos, a probabilidade dos mesmos apresentarem a síndrome de Marfam é mais elevada. O exame radiográfico do tórax e eletrocardiograma são normais nesses pacientes. Ocorrendo suspeita de síndrome de Marfam nos exames pré temporada dos atletas, eles devem ser prontamente encaminhados a uma cardiologista para exames específicos e detalhados da doença. O diagnóstico será mais exato se no ecocardiograma for evidenciado um possível prolapso na válvula mitral assim como a expansão da base da aorta. O prolapso da válvula mitral se caracteriza por uma maior movimentação da válvula para trás do átrio esquerdo durante a fase de contração do ventrículo esquerdo. Isso provoca o regurgitamento do sangue no átrio que reduz o fluxo para a aorta.
Estenose Valvar Aórtica
Entre as doenças cardíacas que causam a morte em atletas, o estreitamento congênito da válvula aórtica (estenose valvar aórtica) é de longe a mais provavelmente, embora não seja a mais fatal. Até o momento, esta anomalia é responsabilizada por apenas uma pequena porcentagem das mortes súbitas registradas na literatura. A Explicação mais pausável é de que mais fácil de ser evidenciada. Os pacientes com estenose aórtica mostram um quadro fácil de ser observado.
Os pacientes com estenose valvar aórtica apresentam o fluxo sangüíneo do ventrículo esquerdo par a aorta obstruído, e o risco de morte súbita é devido, possivelmente, a um fluxo sangüíneo inadequado para o músculo cardíaco durante os exercícios ou a uma marcante elevação da pressão no ventrículo esquerdo, que quando acompanhada de uma atividade física desencadeia um violento reflexo vagal, o qual altera o rítmo cardíaco (Rowland, 1995). O risco de morte súbita mais comum durante uma atividade física vigorosa é mais elevado em pessoas que apresentam uma significativa obstrução na aorta com um aumento na pressão sangüínea, eletrocardiograma anormal e/ou dor no peito. Os atletas que apresenta, risco de morte súbita por apresentarem estenose valvar aórtica são facilmente diagnosticados no exame físico, pois apresentam sopro cardíaco. Esse fato deve ser imediatamente comunicado ao cardiologista.
Exame do Atleta-Risco
Entre os milhões de atletas que fazem uma avaliação médica anualmente, apenas alguns apresentam sintomas que podem induzir a uma morte súbita. Entretanto, a magnitude dessas tragédias exige uma planejamento para minimizá-la. Portanto, torna-se importante procurar métodos eficientes para diagnosticar a doença - essa procura é considerada como achar uma "agulha no palheiro".
Para que ocorra uma redução substancial na ocorrência de morte súbita em atletas é necessário que as ferramentas utilizadas no diagnóstico médico sejam efetivas para evidenciar as quatro condições de alto risco apresentadas acima. Infelizmente, o histórico médico e o exame físico constituem a base da avaliação, embora eles sejam eficientes no diagnóstico de apenas duas situações - aneurisma aórtico associado com a síndrome de Marfam e a estenose valvar aórtica congênita.
O diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica é mais problemática. A observação no histórico médico de dor no peito, tontura, desmaio e respiração ofegante durante as atividades físicas ou o histórico da ocorrência recente de morte súbita na família são indícios importantes. Esses sintomas nem sempre se evidenciam na maioria dos casos. Um ruído desarmônico detectado com o estetoscópio colocado no limite do lado esquerdo do externo, durante a sístole, pode significar um diagnóstico positivo, especialmente se o ruído aumenta quando o paciente executa a manobra de Valsalva. Entretanto, a confiança de que o exame médico e o histórico sejam efetivos para diagnosticar uma cardiopatia hipertrófica não é absoluta, as informações disponíveis são péssimas. Por exemplo, em uma revisão recente feita com resultados obtidos com 134 atletas cardíacos que faleceram, somente um em 48 casos de cardiomiopatia hipertrófica foi confirmado (Maron et al., 1996 a). As anormalidades congênitas das artérias coronarianas são difíceis de serem detectadas pelo histórico e pelo exame médico, porém os pacientes que acusam dor no peito, tontura, desmaio necessitam de uma nova avaliação.
Resumindo, a análise cuidadosa do histórico e um exame clínico minucioso são importantes ferramentas para identificar a possibilidade de risco de morte súbita por problemas cardíacos, durante a prática de atividades físicas. No entanto, não é possível afirmar que essa avaliação reduzirá o número dessas tragédias. Concluindo, deve ser estimulada a busca de métodos mais sensíveis para identificar esses riscos.
A ecocardiografia é o método mais efetivo para identificar pessoas portadoras de cardiomiopatia hipertrófica, e tem sido preconizada como uma análise de rotina nos exames médicos pré-temporada de atletas,. Um exame rápido por ultrassonografia é barato, sensível e específico para detectar uma cardiomiopatia hipertrófica, e pode reduzir a incidência de morte súbita por problemas cardíacos em cerca de 50%. Lamentavelmente, o ecocardiograma não satisfaz esse critério, pois trata-se de um exame muito caro (um estudo completo custa de US$ 500 a US$1000) e necessita de um equipamento proibitivamente caro (US$ 100.000 a US$200.000). Custando US$ 500 por atleta, o gasto anula seria de US$ 2 bilhões para diagnosticar de 3 a 5 atletas que poderão vir morrer devido à cardiomiopatia hipertrófica. Executando um ecocardiograma simplificado com equipamento doado, o custo será barateado podendo ser utilizado em milhões de atletas.
Outro sério inconveniente para a utilização rotineira do ecocardiografo são os resultados falso positivo (Braden & Strong, 1988). Enquanto a cardiomiopatia hipertrófica manifesta, pode ser facilmente identificada um grande número de casos se caracterizam pelo espaçamento do espaço cardíaco que representa a cardiomiopatia leve, ou seja, o "coração do atleta", ou uma variação anatômica normal. Considerando que o espessamento ventricular leve pode ser detectado em dezenas de milhares de jovens normais, cada um desses achados "gera uma carga emocional, financeira e de responsabilidade médica para o atleta, família, time e instituição, em virtude da incerteza criada e da necessidade de novos exames"(Maron et al., 1996b).
Obsessões semelhantes podem ser feitas com relação ao uso do eletrocardiograma como ferramenta de exame. Consequentemente, recomenda-se que o histórico e o exame médico sejam feitos rotineiramente na etapa pré-atividades, e que os outros procedimentos como a ecocardiografia, eletrocardiografia e testes de estresse ao exercício sejam reservados para uma segunda etapa de avaliações destinadas somente a aqueles com suspeita de alguma anomalia cardíaca (Braden & Strang, 1998; Maron et. Al., 1996b).
Sumário
Anualmente nos estados Unidos, somente cerca de uma dúzia de atletas jovens, aparentemente saudáveis, morrem subitamente de doenças cardíacas e vasculares não diagnosticadas. Todos os esforços devem ser feitos no sentido de minimizar o número dessas mortes súbita, as quais ocorrem com mais freqüência durante os eventos esportivos competitivos. Muitas dessas mortes podem ser atribuídas a anormalidades na estrutura e na função do músculo cardíaco, das artérias coronarianas, no fornecimento de sangue para o coração, no espaço da aorta ou ainda na válvula do coração que comanda a aorta.
Algumas anormalidades cardiovasculares que levam à morte súbita podem ser evidenciadas em um exame médico rotineiro avaliativo, porém outras só são detectadas através de testes sofisticados. Infelizmente, procedimentos diagnósticos adicionais como a ecocardiografia e a eletrocardiografia não são recomendadas como diagnóstico de rotina para atletas, devido ao seu elevado custo/benefício, ao alto número de resultados falso positivos. O desenvolvimento de testes melhores, incluindo os genéricos, assim como a disponibilidade de desfibriladores nos locais que ocorrem as atividades esportivas poderão contribuir para a redução no número de mortes súbitas. As limitações atuais de nossa capacidade em identificar os atletas de risco necessita da aceitação de que a prática de atividades esportivas ocasionam algum risco.
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COMO IDENTIFICAR OS ATLETAS QUE APRESENTAM RISCO DE MORTE SÚBITA
O histórico médico e o exame físico do coração são as melhores ferramentas para avaliar e detectar doenças cardíacas que possam colocar em risco os participantes de eventos esportivos. Lamentavelmente, algumas anomalias cardíacas podem provocar a morte durante o treinamento ou competição, as quais não são detectáveis nos exames médicos rotineiros. Os provedores de cuidados médicos podem reduzir as probabilidades de morte súbita dando uma atenção especial para alguns detalhes do histórico familiar e do exame clínico.
Histórico Médico
- Ocorrência de dor no peito, tontura, desmaio, peito ofegante ou fadiga durante os exercícios pode ser um “sinal vermelho” para o eventual esportista. Essa sintomatologia indica a possibilidade de uma doença cardiovascular de alto risco.
- A ocorrência de morte súbita inesperada em algum membro jovem da família levanta a suspeita de uma possível doença cardíaca hereditária. Histórico familiar evidenciando a presença de pessoas altas com problemas cardíacos e/ou de visão, mais particularmente se os demais membros da família não são altos, pode se desconfiar da presença da síndrome de Marfan, que representa um sério risco de morte súbita.
- O histórico da ocorrência de palpitação ou sopro cardíaco são sinais que indicam a necessidade de consultar um cardiologista.
Pelo fato das crianças e dos adolescentes geralmente não terem conhecimentos para responder adequadamente as perguntas de um histórico médico, os pais devem participar do preenchimento do mesmo.
Exame Físico
- Os sinais indicativos da síndrome de Marfan são: estatura elevada, braços e dedos longos, externo afundado, e arcada palatina alta. O diagnóstico da síndrome de Marfan é caracterizado pelo deslocamento da retina, imagem visual desfocada, e dificuldade de ouvir alguns sons.
- Atletas que apresentam um ruído cardíaco desarmônico deve ser encaminhado ao cardiologista. - Este fato torna-se mais importante quando o ruído pode ser audível com alta intensidade quando o estetoscópio é colocado nas costas, quando o ruído fica abafado, quando o paciente está sentado, quando os músculos abdominais são contraídos e a respiração “presa” ou ainda quando surgir qualquer ruído anormal.
- Deve ser medida a pressão arterial e o pulso femural para descartar um possível estreitamento aórtico. O pulso arterial bifásico sugere a possibilidade de um coração aumentado (hipertrófico).
O enfoque no histórico familiar com ênfase aos problemas cardíacos e o meticuloso exame clínico, com especial atenção aos pontos assinalados acima, pode fornecer um diagnostico rápido e rotineiro sobre as condições físicas dos atletas. Qualquer problema ou dúvida deve ser levada ao cardiologista antes de permitir que o atleta inicie um programa de treinamento mais vigoroso.
