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SSE 32: Anemia e formação de sangue (hematopoiése)

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EICHNER E. R. Anemia e formação de sangue (hematopoiése). Sports Science Exchange. Gatorade Sports Science Institute , v. 14, n. 1, jan/fev/mar. 2002. Disponível em: http://www.gssi.com.br/. Acesso em xx.xx.200x.

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Autores: Edward R. Eichner

Introdução

O sangue é fascinante: preenche nosso corpo e nosso linguajar. Nós falamos de sangue grosso e fino, quente e frio, bom e ruim, plebeu e nobre. Dizemos irmãos de sangue, dinheiro sangrento, feudo de sangue. Temos expressões como sangue-suga, sede de sangue, mancha de sangue. Há duzentos anos os médicos prescreviam a ingestão de sangue. E atualmente, entre os esportistas, lamentavelmente observa-se o uso de substâncias que estimulam a formação de sangue. Atletas, preparadores físicos, treinadores e médicos querem saber qual a quantidade ideal de hemoglobina no sangue de um atleta e qual o nível que o leva a ser um vencedor. Eles perguntam sobre anemia do esportista e hemólise sanguínea e desejam saber como níveis baixos de ferritina provocam cansaço. Querem dicas para prevenir, diagnosticar e tratar a anemia causada por deficiência de ferro (ferropriva). Acham que doar sangue prejudica o rendimento. Querem saber as últimas novidades sobre a formação de sangue. Esses tópicos serão cobertos nesta edição.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

Anemia no Esporte

Os atletas, mais especificamente os de resistência, tendem a apresentar uma ligeira diminuição no nível de hemoglobina sanguínea, quando comparado com uma população normal. Como o nível de hemoglobina sanguínea caracteriza a anemia, esta pode ser chamada de anemia do esportista ou do atleta.
Porém, a anemia é um termo inadequado para ser utilizado para a desordem que se instala em atletas, especialmente em homens, quando estes apresentam uma baixa concentração de hemoglobina no sangue, pois trata-se de uma falsa anemia. O volume total de células vermelhas no sangue é normal. A concentração de hemoglobina diminui porque os exercícios aeróbios aumentam o limiar mínimo do volume plasmático, conseqüentemente ocorre uma diminuição na concentração de células vermelhas, que contêm hemoglobina. Em outras palavras, a concentração de hemoglobina naturalmente baixa encontrada nos atletas de resistência é consequência de uma diluição, portanto se trata de uma pseudo-anemia.
Podemos dizer que a pseudo-anemia é uma adaptação da hemoconcentração que ocorre quando o organismo é submetido a um trabalho intenso. Os exercícios agudos e vigorosos reduzem o volume plasmático em 10 a 20% por três vias. Uma ocorre devido ao aumento da pressão sanguínea e, como consequência, ocasiona um aumento na compressão muscular sobre as vênulas, que por sua vez, aumentam a pressão dos líquidos dentro dos capilares para ativar a musculatura. Em segundo lugar temos a formação de ácido lático e outros metabólitos nos músculos, que aumentam a pressão osmótica dos tecidos. Essas duas situações provocam uma saída do plasma do sangue para os tecidos, conservando os glóbulos vermelhos. Finalmente, a água sai do plasma e é eliminada através do suor.
Em resposta: o organismo libera renina, aldosterona e vasopressina para manter os níveis de água e sal normais. Também ocorre uma adição de albumina no sangue (Nagashima et al., 2000). O resultado final dessas alterações é um aumento no volume plasmático. Esse fato pode ocorrer mesmo quando é feita uma única sessão de exercícios, neste caso o volume plasmático pode ter uma expansão de 10% em 24h. (Gillen et al.).
Consequentemente, é comum ocorrer uma diminuição na concentração de hemoglobina sérica da ordem de 1g/dL ou mesmo de 1,5g/dL comparativamente com os níveis normais. O diagnóstico de uma pseudo-anemia depende do conhecimento da capacidade aeróbia (determinada ao nível do mar) excluindo a possível presença de outro tipo de anemia. O volume plasmático preenche rapidamente os espaços criados pelo nível de exercício. Os atletas que treinam em alta intensidade apresentam níveis mais baixos de hemoglobina e quando os exercícios são interrompidos esse nível se eleva rapidamente.
A pseudo-anemia é um importante indicador de um bom preparo físico aeróbio. O aumento do volume plasmático, associado às adaptações que ocorrem com o "coração do atleta" promovem um aumento no volume cardíaco. Portanto, o que observamos é um aumento na liberação de oxigênio ao músculo para compensar a diminuição da concentração de hemoglobina. Resultado: um atleta melhor.

Hemólise por trauma

A hemólise por trauma ocorre quando as células sanguíneas circulantes se rompem devido a impactos, principalmente aqueles que ocorrem durante uma corrida. Trata-se de uma hemólise intravascular. Como a hemólise intravascular ocorre em diversos esportes como ginástica aeróbia, lutas, levantamento de pesos e mesmo na natação, a terminologia mais adequada seria hemólise esportiva (Eichner, 2001b).
A hemólise esportiva é normalmente suave. Ela diminui, porém raramente esgota a haptaglobina sanguínea. A haptaglobina é uma proteína que se liga à hemoglobina formando um complexo que evita a perda de ferro através da urina. O ferro liberado das células vermelhas hemolisadas é reciclado e novamente ligado à hemoglobina recém formada. Dessa maneira a anemia dificilmente se instala. Por outro lado, pesquisas feitas com ciclistas demonstraram que a hemólise que ocorre em função dos exercícios é benéfica para o organismo pois remove as células vermelhas mais velhas e rígidas e estimula uma síntese compensatória de novas células vermelhas, que são mais deformáveis e passam pela microcirculação (Smith et al. 1999).
O diagnóstico da hemólise esportiva está na dependência de três fatores: 1) aumento no tamanho das células vermelhas que se manifesta em um maior número de células jovens; 2) aumento no número de reticulócitos (células jovens) e 3) baixo nível de haptaglobina. O exame microscópico é normal e raramente aparecem células vermelhas deformadas. O aparecimento de hemoglobina na urina é raro.
O tratamento da hemólise por impacto determina que se evite da seguinte maneira: 1) use sapatos de corrida acolchoados; 2) perca peso; 3) pise leve; 4) corra em superfícies macias (como grama). Não está clara a maneira de prevenir a hemólise em outros esportes.

Anemia por deficiência de ferro

Como a anemia do esportista é uma falsa anemia, a hemólise que ocorre com a prática de atividade física, dificilmente causa uma anemia. Portanto, a principal causa da anemia em atletas é ocasionada pela ingestão deficiente de ferro que é a principal responsável pela fadiga nas mulheres. A ingestão insuficiente de ferro, que é o principal componente da hemoglobina, pode levar a uma deficiência na sua produção.

Fadiga devido ao esforço

A fadiga apresenta diversas facetas. Pessoas deprimidas sentem-se mais fatigadas no fim do dia. Pacientes que se recuperam de mononucleose ou hepatite viral sentem-se bem no início, porém logo tem necessidade de dormir. Pessoas com anemia sentem fadiga somente quando estão se exercitando (Eichner, 2001 a).
Quando a anemia é suave, os exercícios estafantes podem ser o único elemento diagnosticador. Foi o caso de três atletas colegiais, todos com um diagnóstico inicial difícil (Eichner & Scott, 1998). Um deles era um corredor de elite que começou a perder corridas. Outro era um jogador de "softball" que foi a um cardiologista por sentir dores no peito e taquicardia durante os treinos. O último caso foi o de um jogador de basquete que estava muito abaixo de seu rendimento. Em todos os casos o responsável pela perda da resistência foi a anemia por deficiência de ferro (ferropriva).

Abrangência da deficiência de ferro

Em um levantamento recente, feito em cerca de 25.000 americanos, foi observado que 10% das mulheres jovens apresentavam uma deficiência de ferro e 3 a 5% eram anêmicas. Por outro lado, os casos no sexo masculino eram raros, pois fisiologicamente perdem pouco ferro (Looker et al., 1997).

A anemia é relativa

O levantamento citado acima definiu como anêmicas as mulheres que apresentaram um teor de hemoglobina <12g/dL. Este número convencional ignora que a anemia é relativa - um aspecto redescoberto pela medicina esportiva e apresentado em dois estudos recentes. Em um desses estudos, mulheres jovens que apresentavam um baixo teor plasmático de ferritina (um indicador das reservas de ferro), porém uma quantidade de hemoglobina >12g/dL, receberam ferro ou placebo durante 6 semanas em que estavam treinando. Aquelas que receberam ferro melhoraram o desempenho pedalando mais rapidamente. A hemoglobina tendeu a se elevar com a suplementação de ferro e essa elevação foi responsável pela "eficiência energética". Conclusão: mulheres mesmo apresentando um teor de hemoglobina >12g/dL podem estar "funcionalmente anêmicas" (Hinton et al., 2000).
Pesquisas avaliaram o VO2 max em dois grupos de mulheres jovens chamadas de "não anêmicas" porque apresentavam um teor de hemoglobina no sangue >12g/dL (Zhu et al., 1997). Outro grupo apresentava-se como deficiente em ferro (ferritina <12mcg/L). Um dos grupos foi depletado de ferro e o outro não. O primeiro grupo (não anêmico) apresentou um VO2 max inferior ao apresentado pelo outro grupo. Este último grupo também apresentou um teor de hemoglobina mais baixo que o primeiro (média de 13,6g/dL vs. 14,5g/dL). Desse modo, embora as mulheres depletadas de ferro tivessem um teor de hemoglobina >12g/dL, eram anêmicas comparativamente com aquelas que foram repletadas de ferro.

Examinando as atletas

Portanto, podemos afirmar que a anemia é relativa. Nos estudos citados podemos notar que pequenas diferenças no teor de hemoglobina afeta o desempenho atlético. Todas as mulheres estudadas apresentaram um nível de hemoglobina superior a 12g/dL e foram afetadas no seu desempenho. A anemia poderia ser mais bem definida como um teor de hemoglobina individual abaixo do normal. Por exemplo, uma atleta poderá ser considerada anêmica com 13 g/dL de hemoglobina se seu valor normal for 14 g/dL. Um número absoluto não caracteriza anemia.
Corolário: A anemia ferropriva é mais comum do que os inquéritos mostram. Quanto mais uma atleta exigir de seu corpo, mais fatigada ela vai se sentir se apresentar uma anemia suave. Por este motivo, atletas do sexo feminino devem ser examinadas periodicamente. Na Universidade de Oklahoma examinamos periodicamente todas as atletas, primeiramente determinamos as concentrações sanguíneas de hemoglobina e de ferritina. No primeiro ano de exames encontramos 10 a 20%, ou até mais, de mulheres atletas com deficiência de ferro. Muitas delas estão anêmicas, algumas com um nível de hemoglobina < 12g/dL, algumas >12g/dL.
Por exemplo, dois anos atrás, 20% das mulheres praticantes de volei e de basquete apresentavam anemia ferropriva com hemoglobina <12g/dL, chegando ao nível impressionante de 50% (8 das 16) das jogadoras de futebol. Uma entre nove jogadoras apresentava teor de hemoglobina de 13,2g/dL, porém um baixo nível de ferritina. Após ingestão de ferro, o nível de hemoglobina se elevou para 15,1g/dL e a resistência física aumentou. Portanto, a anemia ferropriva, normalmente suave e subestimada, é comum entre as atletas do sexo feminino e rara entre os homens. Nós não examinamos homens no que tange ao diagnóstico de anemia.

Cavalo ou carroça?

O atletismo provoca uma deficiência de ferro ou apenas mascara? O último parece ser o mais verdadeiro. A anemia que ocorre em atletas, principalmente em mulheres, corredoras de longa distância, parece ser devido a uma ingestão inadequada de ferro que como consequência não atende as exigências fisiológicas. O assunto a ser discutido é o papel das perdas de ferro através da sudorese, perdas de sangue pela urina (hematuria) ou mesmo as perdas intestinais. Um dos estudos feitos nesse sentido mostrou que o organismo apresenta perdas modestas de ferro através da transpiração (Waller & Haymes. 1996). Em uma hora de exercícios moderados praticados em um ambiente quente, as perdas de ferro através da sudorese foram de apenas 6% daquele absorvido diariamente. A excreção urinária de ferro é ínfima. Alguns atletas perdem ferro através do tracto gastrintestinal (GI).

Hemorragia GI

Cerca de 2% dos maratonistas e triatletas apresentam fezes hemorrágicas após uma competição, e cerca de 20% dos corredores de longa distância apresentam sangue oculto nas fezes da primeira defecação após uma corrida. Encontramos traços de sangue nas fezes de metade dos competidores de nível colegial, durante a estação de competições de "cross-country" e ciclismo (Eichner, 2001b). Examinando as fezes de corredores de longa distância do sexo masculino, com reservas baixas de ferro, Nachtigall et al. (1996) utilizando ferro radioativo, observou que nos dias de descanso a quantidade de sangue eliminada por essa via era de 1 a 2ml/d. Nos dias de competição essa quantidade aumentou para uma média de 5 a 6ml/d. Verificou também que a quantidade de sangue excretada estava mais correlacionada com a intensidade do esforço do que com a distância percorrida.
Qual a origem do sangramento? Uma é a gastrite. Estudos endoscópicos feitos um dia após a maratona de Chicago mostraram danos superficiais na parede do estômago. Essas lesões desapareciam rapidamente. Mais preocupante foram as colites isquêmicas.

Colite isquêmica

Esta fonte GI de sangue causa cólicas nas porções mais baixas do abdome e diarréia sanguinolenta durante a corrida ou treinamento intenso. Essa colite hemorrágica é conseqüência, em parte, de uma severa desidratação associada a um desvio da corrente sanguínea do intestino para os músculos.
A colite isquêmica, em alguns casos, pode provocar a remoção parcial do cólon, como já ocorreu com duas atletas que participaram do ironman no Havaí. Porém, a mais comumente encontrada é a colite isquêmica suave que responde satisfatoriamente a uma terapia conservadora. A atleta Uta Pippig teve que ser hospitalizada após vencer a 100a Maratona de Boston. Parece que os sintomas regridem com uma terapia de suporte (Lucas & Schroy, 1998).
Sessões repetitivas de exercícios podem estar relacionadas com problemas gastrintestinais que contribuem para a instalação de um quadro anêmico. Devido ao fato das mulheres armazenarem menor quantidade de ferro no organismo, elas estão mais propensas a desenvolver a anemia em conseqüência das perdas repetitivas de pequenas quantidades de sangue.

Diagnóstico e Terapia

O diagnóstico da anemia ferropriva depende das seguintes situações: 1) Limiar baixo para o teor de hemoglobina no sangue, não superior a 13 - 13,5g/dL, fato que em mulheres já pode caracterizar a anemia ferropriva; 2) Quantidade abaixo do normal de células vermelhas (eritrócitos); e 3) Baixa ferritina sérica, geralmente inferior a 12mcg/L. A terapia consiste na administração de sulfato ferroso na dose de 325 mg, 2 a 3 vezes por semana durante as refeições. Após alguns dias o teor de hemoglobina pode se elevar até 1 g/dL por semana, e atingir os níveis normais em dois meses.

O suplemento deste artigo fornece algumas dicas práticas como:
1) Análise das circunstâncias que estão predispondo a baixa bio-disponibilidade do ferro nas mulheres e conseqüentemente promovendo a anemia
2) Como ingerir uma alimentação mais rica em ferro.

Quando uma mulher desenvolve anemia, a despeito dos cuidados nutricionais, ministro uma suplementação de 325 mg de sulfato ferroso, 2 a 3 vezes por semana (Tabela 1). A suplementação com ferro não deve ser ministrada em homens (Tabela 2). Quando o comportamento de todas for semelhante, enfatize as mulheres que perdem >60 mL de sangue por mês, pois estão mais propensas a desenvolver a anemia. Não se esqueça que o uso de contraceptivos orais diminuem as perdas de sangue.


Tabela 1. Tratando a Anemia Ferropriva
· Mulher atleta: em caso de dúvida, trate.
· Comprove a anemia ferropriva: com o tratamento com ferro o teor de hemoglobina se eleva em 1 g/dL ou mais.
· Sulfato ferroso é o mais recomendado (cada comprimido contém 65 mg de ferro elementar)
· Esteja alerta: quantidades maiores de ferro por comprimido aumentam os riscos de intolerância gastrintestinal.
· Inicie com um comprimido no jantar por três dias. Desta maneira a ingestão será melhor aceita.
· Não anêmico porém com baixo teor de ferritina: administre um suplemento com baixo teor de ferro (27 mg/comprimido).

 

Tabela 2. Sobrecarga de Ferro - Diferença entre os Sexos
· O risco de uma sobrecarga de ferro, que pode causar problemas hepáticos, oferece o dobro do risco de uma deficiência de ferro.
· Um em cada duzentos homens tem o gene que causa a hemocromatose (acúmulo de ferro)
· Pacientes portadores do gene da hemocromatose absorvêm duas a três vezes mais ferro
· Ingestão de comprimidos de ferro aceleram esse problema.
· As mulheres apresentam vinte vezes mais problemas de deficiência de ferro que de sobrecarga.
· A maioria das mulheres necessita uma maior quantidade de ferro do que a ingerida. A maior parte dos homens ingere mais ferro que necessita.


Baixa Ferritina

Muitos atletas acreditam que uma baixa concentração de ferritina causa fadiga. Não é verdade. A ferritina não tem função no plasma. Ela está presente no plasma como um transportador e é usada como um medidor das reservas de ferro. O papel da ferritina está nas células, ela é uma proteína que se liga ao ferro para armazená-lo com segurança. Se as reservas de ferro se elevam, a sua concentração sobe tanto nas células como no plasma. Se as reservas de ferro diminuem, as de ferritina também caem. Mas, se a taxa de hemoglobina for normal, um baixo teor de ferritina não causa fadiga. Não se pode sentir a ferritina.

Doar Sangue

Uma pergunta comum entre os corredores: doar sangue diminui o ritmo da corrida? Sim, é justamente a diferença entre doar e receber sangue.

Transfusão de Sangue: Ergogênico

Em um estudo muito bem conduzido, 20 homens corredores de resistência receberam eritropoietina recombinante humana (EPO) ou placebo por 4 semanas. O grupo que recebeu EPO apresentou um aumento de 19% no hematócrito (de 43% foi para 51%), aumentou em 7% o VO2max e o tempo de exaustão subiu 9% em teste com bicicleta. Os efeitos ergogênicos permaneceram por 3 semanas após cessar a experiência (Birkeland et al., 2000).

Doar Sangue: Ergolítico

Se estimular a formação de sangue é ergogênico (aumenta o rendimento) doar sangue é ergolítico (drena a resistência) . Exemplo, Panebianco et al. (1995), estudaram 10 ciclistas do sexo masculino, que fizeram um teste ergométrico progressivo em bicicleta até a exaustão. Doaram então cerca de 500ml de sangue e repetiram o teste 2h, 2 dias e duas semanas após a doação. O resultado obtido comparado com a linha de base foi inferior em 8, 8 e 7% respectivamente. Em outras palavras, o rendimento permanece baixo mesmo uma semana após a doação.

Doar ou Não?

Os atletas de alto nível devem entender que doar sangue é altruístico porém também é ergolítico. Felizmente as experiências têm demonstrado que o desempenho volta aos níveis normais duas a quatro semanas após a doação. Porém a doação drena as reservas de ferro. As atletas que doam sangue regularmente correm o risco de ficarem anêmicas, a menos que tenham uma grande suplementação de ferro.

Estimular a formação de sangue (Eritropoiése)

Treinar em altitudes elevadas é um artifício ético e legal para aumentar o "volume sanguíneo", aumentando a quantidade de hemoglobina. Se você vive em altitude e treina em baixo, estará ganhando alguns segundos em uma prova de 5.000 metros. Ganha-se com o aumento da captação máxima de oxigênio (Levine & Stray-Gundersen, 1997).

Treinar em altitude é legal, o uso de EPO não é. O uso da EPO iniciou-se em 1987, quando foi lançado na Europa. Até hoje os atletas utilizam-o para aumentar seu volume sanguíneo. Desde o seu surgimento já morreram cerca de 20 ciclistas europeus, a maior parte de morte súbita e inesperada. Suspeita-se que a EPO seja responsável pelas mortes. Os ciclistas negam, porém o escândalo que ocorreu na Volta da França de 1998 forçou a confissão de que a EPO era usada largamente. Parece que muitos ciclistas continuam usando-a ainda nos dias atuais. Maratonistas, triatletas e esquiadores também fazem uso da EPO.

O problema está no fato da EPO aumentar a quantidade de hemoglobina a níveis muitos elevados, fato que faz com que o coração tenha uma sobrecarga de trabalho, correndo o risco de ocorrer a formação de um coágulo. A EPO também provoca um aumento na pressão arterial. Para desencorajar o uso da EPO e proteger os atletas deles mesmos, as federações de esqui e de ciclismos têm feito exames rotineiros do hematócrito dos participantes das competições, não permitindo que aqueles que apresentam um hematócrito alto participem da competição (a percentagem de eritrócitos no sangue não se modifica).

A verificação do hematócrito antes de uma competição faz com que os atletas usem outros meios para mascarar o resultado como ingerir uma bebida salina ou uma substância que promova uma expansão no volume plasmático, causando uma diluição no sangue momentos antes da competição. No maior escândalo de doping da história da Finlândia foram pegos 6 esquiadores da elite do "cross country" que ingeriram substâncias que promovem a expansão do volume plasmático. Têm sido observado também entre os atletas a administração de sangue artificial, derivados perfluorados e hemoglobina bovina polimerizada, sempre com o objetivo de levar mais oxigênio para os músculos.

O Comitê Olímpico Internacional introduziu um teste para detectar a presença de EPO que foi utilizado nas Olimpíadas de Sydney. O teste é dividido em duas partes, a primeira consiste num teste sanguíneo usando marcadores que aceleram a eritropoiése (ou seja, tamanho dos eritrócitos, contagem de reticulócitos e determinação do receptor solúvel da transferina). Essa primeira parte só detecta um perfil e sugere o uso da EPO, mas não comprova .

A segunda parte consiste em um teste urinário: Trata-se de uma imuno detecção da EPO fixada após o seu isolamento no ponto isoelétrico. O teste urinário comprova o uso da EPO (Lasne & de Ceauzziz, 2000). O problema enfrentado em Sydney é que os dois testes deveriam dar positivo e devido a vida curta da EPO (o teste urinário dá negativo 3 a 4 dias após o atleta a ter utilizado a EPO). Portanto, em Sydney nenhum atleta foi flagrado usando EPO. O teste urinário está sendo usado há mais de 1 ano fora do período competitivo. Parece que logo poderemos frear o uso da EPO entre os atletas.

Alguns atletas utilizam salas pressurizadas imitando altitudes, ou tentam a administração de sangue. A idéia é "viver no alto e treinar em baixo" sem mover montanhas. Os atletas vivem ao nível do mar onde o oxigênio é suficiente para suportar um treinamento pesado, porém eles dormem em câmaras com nitrogênio misturado no ar para diminuir o teor de oxigênio do nível normal de 21% para cerca de 15%. Desta maneira ocorre um aumento endógeno da EPO, que aumenta a concentração de hemoglobina. As câmaras de altitude são legais e muitos a consideram ética - tão somente mais um avanço tecnológico, como outros. Porém é seguro? E justo? Qual o preço da glória?

- A anemia do atleta é benéfica e não prejudicial.
- A hemólise que ocorre em exercícios intensos é comum e não causa a anemia.
- A deficiência de ferro é comum entre mulheres atletas, e pode causar fadiga durante os exercícios mais intensos, mesmo quando os níveis de hemoglobina parecem ser "normais". É importante saber que a anemia é relativa e os seus sintomas podem estar mascarados. Encontre um ponto de equilíbrio para determinar a anemia nos atletas, renove sua capacidade e torne-o capaz de desempenhar o melhor.


Sumário

Revisando este artigo podemos notar que existem três tipos de anemia de atletas. A anemia no esporte é um termo impróprio. O mais correto seria a falsa anemia, a anemia dilucional e a pseudo-anemia. Sempre se caracteriza por um aumento no volume plasmático acima da normalidade, uma adaptação do organismo a atividades aeróbias.
A hemólise de "pisada" ou melhor hemólise do exercício é comum clinicamente e pelo fato de ser suave, raramente debilita o organismo de ferro, causando anemia. A anemia ferropriva, no entanto, é a causa mais comum da fadiga no exercício entre as mulheres atletas. Nesta revisão foi apresentado como diagnosticar, tratar e prevenir a anemia ferropriva. Também foram abordados aspectos sobre doação e formação de sangue (hematopoiése).
Os atletas de resistência continuam usando a EPO e utilizam métodos tecnológicos para aumentar o volume sanguíneo. Um novo teste na urina para detectar a EPO está sendo usado e poderá inibir o abuso da EPO nos esportes. Considerando a natureza humana, no entanto, alguns atletas continuarão a trapacear para vencer ou morrer tentando.

Referências
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Anemia Ferropriva em atletas do sexo feminino

A deficiência de ferro é a principal causa da verdadeira anemia, caracterizada por um baixo teor de hemoglobina, e a principal causadora da fadiga em atletas do sexo feminino. A verdadeira anemia é rara no sexo masculino. O ferro é o principal componente da hemoglobina, portanto, sua deficiência acarreta uma diminuição da hemoglobina sérica.
Cerca de 10% das mulheres jovens apresentam uma deficiência de ferro e 3 a 5% apresentam a anemia convencional, que desconsidera uma anemia suave, porém cerca de 50% das mulheres jovens que praticam algum tipo de esporte podem estar anêmicas por deficiência de ferro.
É interessante o fato de que as atletas anêmicas sentem cansaço somente em treinamento. A caracterização convencional da anemia se baseia no limite de 12g/dL de hemoglobina abaixo do qual pode-se considerar anêmica, porém algumas mulheres podem apresentar deficiência de ferro e supostamente apresentam hemoglobina normal, esses casos podem ser chamados de anêmicos "funcionais". Essas mulheres melhoram sua capacidade atlética aeróbia tomando um suplemento de ferro.
A anemia pode ser mais bem definida como uma taxa de hemoglobina abaixo do normal para o nível daquela pessoa, portanto, é individual. Por exemplo, uma mulher com um valor de hemoglobina de 13 g/dL pode ser anêmica se o seu valor normal for de 14 g/dL. Um valor absoluto não caracteriza um estado anêmico.

Este suplemento oferece duas dicas práticas:
1) Fatores que predispõem as mulheres atletas a uma baixa biodisponibilidade de ferro e conseqüente à anemia e
2) Caminhos para ingerir mais ferro. Quando a mulher atleta desenvolve a anemia mesmo com as dicas, seu médico deve recomendar uma suplementação com sulfato ferroso, na dose de 325 mg, duas a três vezes por semana.

Fatores que estão associados com a baixa biodisponibilidade de ferro dietético

- Ingestão baixa de alimentos (< 2000 kcal/dia)
- Vegetarianismo (especialmente se ignorar leguminosas, nozes e sementes)
- Fazer dieta hipocalórica ou ter hábitos alimentares errados.
- Ingerir dietas ricas em carboidratos e raramente ingerir carne, pescados e aves.
- Dar ênfase a ingestão de alimentos para esportistas (barras e geléias).
- Evitar alimentos enriquecidos com ferro como cereais e pães.

Explicação: Existem fatores que predispõem a mulher atleta a uma deficiência de ferro. Uma mulher jovem necessita de 15-18 mg de ferro por dia, mas a atleta que está fazendo dieta , tem uma desordem alimentar, ou é vegetariana, normalmente ingere menos ferro que necessita. Por exemplo, quando ingere cerca de 2000 kcal por dia, não está ingerindo mais de 12 mg de ferro por dia. As atletas jovens que devem ter baixo peso ou uma boa aparência (ginastas, corredoras de distância, praticantes de saltos ornamentais, bailarinas etc), comumente se alimentam mal e estão sujeitas a desenvolver a anemia.

Dicas Dietéticas para Prevenir a Anemia

- Coma carne vermelha ou carne escura de aves.
- Evite tomar café ou chá durante as refeições.
- Tome suco de laranja nas refeições.
- Use panela de ferro para cozinhar.
- Tenha uma alimentação variada.

Explicação: A melhor maneira de aumentar o ferro de sua alimentação é aumentar a carne de sua alimentação. Coma cerca de 100 g de carne vermelha magra três vezes por semana. Esse procedimento também fornece quantidades adequadas de zinco. A carne escura das aves, também é boa fonte de ferro. Bebidas como o café, chá e bebidas ricas em compostos fenólicos e taninos, que inibem a absorção do ferro, devem ser evitadas.
Em contrapartida, o suco de laranja e outras boas fontes de vitamina C ajudam na absorção do ferro. Ovos mexidos preparados em panelas de ferro, assim como o cozimento de tomates e sopas de vegetais nas mesmas panelas, enriquecem os alimento com ferro.
Ingerir alimentos mistos como pescados ou frutos do mar com ervilha, feijão e outras leguminosas. A proteína das aves e dos pescados aumenta a absorção do ferro presente nos legumes. Os vegetarianos podem obter mais ferro com a ingestão de moluscos, grãos integrais, melaços, cereais enriquecidos, folhas verdes de vegetais, espinafre, frutas secas, tofu, soja e outros legumes.

Leitura adicional recomendada

Eichner, E.R. (2001). Fatigue of anemia. Nutr. Rev. 59: S17-19.
Hinton, P.S., C. Giordano, T. Brownlie, and J.D. Haas (2000). Iron supplementation improves endurance after training in iron-depleted, nonanemic women. J. Appl. Physiol. 88: 1103-1111.
Zhu, Y.I., and J.D. Haas (1997). Iron depletion without anemia and physical performance in young women. Am. J. Clin. Nutr. 66: 334-341.